Vamos ficar bem?
Vamos ficar bem?

Eu adoro o programa Espelho do Lázaro Ramos, e vou citar uma entrevista aqui, que talvez eu use em outros textos. Em 2014, o Lázaro entrevistou o rapper Criolo e foi fantástico, perdi as contas do quanto já assisti a essa entrevista.

Lembro que até virou meme o desabafo do rapper sobre a “ascensão da classe C”, por gente que não entendeu o que ele quis dizer.

Uma das frases que me marcaram na entrevista foi dita perto do fim do programa, em que o artista volta a falar sobre a classe C. Em dado momento, o Criolo diz:

“A mão que segura o chicote, ela não é invisível. E ela só vai dando tempo pra gente, pra ver como que a gente se relaciona com essa frigideira quente. Na hora em que eles falarem “calem a boca desses meninos”, eles vão calar nossa boca”.

E o que quero dizer com isso?

Ano pesado, né? Acho que consigo lembrar mais das más notícias de 2019 do que das boas, e olha que meu time se classificou para a final do Estadual depois de 16 anos.

Cá pra nós, sei que to escrevendo pouco aqui no Êxodo, mas tenho me estressado muito fora dele.

Gente, alguém viu a notícia que o exército disparou 80 tiros no carro de uma família que estava indo para um chá de bebê? Cês viram o relato da esposa da vítima falando que os soldados debocharam dela?

Cês viram algum pronunciamento do Ministro da Justiça ou do Presidente da República sobre isso, ou Golden Shower é mais escandaloso do que o genocídio negro no Brasil? Atualizem-me sobre o assunto, por favor. Talvez eu seja o ultrapassado.

Também, há algumas semanas, o DJ Rennan da Penha, idealizador do Baile da Gaiola, famoso nas favelas do Rio de Janeiro, foi preso por associação ao tráfico de drogas. Não é novidade a criminalização do funk e dos bailes, exceto se for consumido por determinado público, fora das favelas. Não é novidade que eles vão calar a boca de um jovem negro favelado, quando isso for necessário.

E então, voltando ao domingo, dia do assassinato, teve um ato de um grupo de esquerda em protesto contra a prisão do ex-presidente Lula. Deitaram no chão, formando a frase “LULA LIVRE”, segurando e rodando guarda-chuvas coloridos, simbolizando tudo, menos o que precisamos da esquerda no momento.

No domingo também o Kendrick Lamar tocou em São Paulo, no Lollapalooza.

O meu sonho é assistir a um show do Kendrick Lamar, mas talvez a elite brasileira consiga sonhar mais alto, considerando a maioria do público do festival. Talvez a elite brasileira tenha uma sensibilidade com racismo, injustiça-social que a gente não tem, e aí tenha ficado mais fácil de apreciar o show.

Já ouviram “Alright” (Tudo Bem) do Kendrick Lamar? É uma carta aberta para a comunidade negra, não só americana, não só fã de rap. É uma carta falando que vamos ficar bem, independente do que está acontecendo. Das notícias ruins que a gente consegue lembrar e/ou sentir com mais facilidade. Da forma em que o Estado nos mata todos os dias. Da falsa liberdade, também falada pelo Criolo.

O refrão repete várias vezes a frase “Nigga, we gon’ be alright” (Mano, nós vamos ficar bem).

O fato é que o Kendrick cresceu em Compton, um berço de rappers, mas marcada também pela violência.

Lamar cresceu em meio a essa violência e lembrou-se de fazer uma música pra que ajude uma população oprimida e desiludida pelas tragédias do cotidiano.

Repetimos todos os dias que vai ficar tudo bem, e o Kendrick, considerado um dos melhores rappers de todos os tempos, também repete. Não sei, prefiro não discordar, espero que a gente fique.

Imagem: Clipe “Alright” de Kendrick Lamar

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Dennis Cunha

PAULISTANO, ESTUDANTE DE DIREITO, AMANTE DA CULTURA HIP-HOP E METIDO A ESCRITOR.

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