Um povo sem memória
Se reconhecer negro é um exercício diário de desconstrução de padrões
Um povo sem memória
Se reconhecer negro é um exercício diário de desconstrução de padrões

Quando se pensa na história do negro no mundo, a primeira imagem que vem a mente é a escravidão dos povos africanos, a desumanização do homem objetificando o outro. Os números dessa diáspora são incalculáveis, temos noção de onde começa e “termina”, mas não dos estragos no meio desse processo longo e tortuoso. A mancha dessa história feita de sangue, preconceito e intolerância ainda é presente e continua fazendo vítimas.

Segundo o último censo realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (2010), cerca de 50,7% da população brasileira se declara negra, considerando que, de acordo com o IBGE, o povo brasileiro é definido pelas categorias: indígenas, amarelos, brancos e negros (pretos e pardos). Atualmente somos o segundo maior país negro em população do mundo, perdendo apenas para Nigéria que fica no continente africano.

Direcionamos nosso olhar ao Brasil e vemos em seu povo as marcas dessa imigração forçada e violenta, um povo que muitas vezes não se reconhece e não se encontra, pois não estuda sua própria trajetória, não reflete sobre o passado para gerar processos eficazes que realmente mudem o presente/futuro.

Muitos povos constituem nossa nação e contribuíram para nossa formação social e cultural, os povos negros que foram escravizados não trouxeram para nosso país apenas sua mão de obra, mas também novas técnicas, ferramentas, danças, religião, comida, diversidade que se fundiu com tantas outras e formou o povo brasileiro. A Lei n° 10.639 altera a lei n° 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira”. Desde então a Lei assegura o direito ao ensino da memória negra.

Não estudamos a história da diáspora negra e, quando nos deparamos com ela poucas partes e nomes nos são apresentados. Quando falamos de Zumbi não nos contam de sua mulher a guerreira Dandara, que ao seu lado (e de tantos outros) formavam o Quilombo de Palmares e, lutaram pela liberdade de seus irmãos escravizados.

O patriarcado não está habituado a contar nas redes de ensino a história da mulher em qualquer aspecto, quando geramos o recorte de raça o apagamento da mulher negra se intensifica, primeiro por serem mulheres e depois por serem negras, os rastros de suas narrativas foram distorcidos e apagados. 

Se reconhecer negro é um exercício diário de desconstrução de padrões, pois não nos vemos representados na história. O ponto em que devemos partir, deve ser o de que vidas negras importam, que mulheres negras, mães solos, são uma maioria na periferia como único alicerce de suas famílias e, essas mulheres são silenciadas, são apresentadas apenas aos trabalhos domésticos e se conformam ali, pois a sociedade reforça esses padrões, se omitindo, negando o básico, suprimindo a memória de tudo que foge do padrão.

Graças há muitos anos de luta e, a crescente onda jovem de mudanças em vários aspectos e camadas, esse cenário está mudando positivamente, para as atuais e futuras gerações.

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Gleiziele Oliveira

Estudante de jornalismo, já fez trabalhos como produtora audiovisual. Amante de livros e boas histórias. Também trabalha como Atriz no grupo Dádivas da Melanina e, como Assistente de Produção Editorial na empresa Caboverde Tecnologia e Serviços.

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