Sobrevivendo no Inferno, ainda
Sobrevivendo no Inferno, ainda

“60% dos jovens de periferia sem antecedentes criminais já sofreram violência policial. A cada quatro pessoas mortas pela polícia, três são negras. Nas universidades brasileiras, apenas 2% dos alunos são negros. A cada quatro horas, um jovem negro morre violentamente em São Paulo Aqui quem fala é Primo Preto, mais um sobrevivente.”

Assim começa “Capítulo 4, versículo 3”, uma das músicas mais fortes que já ouvi, do maior grupo de rap nacional que já existiu, os Racionais Mc’s. O engraçado é que a primeira vez que ouvi, com uns 10 anos de idade, morri de medo e continuei assim por muito tempo.

Claro que teria medo, sou preto, cresci com a minha avó em uma casa bem humilde, no comecinho de uma favela da zona leste de São Paulo, e a molecada sabia muito bem até onde podia ir ali na rua sem ser exposto ao tráfico de drogas. Desde cedo. Hoje, grande parte desses moleques não terminou o ensino médio, tornaram-se pais cedo, tiveram que arrumar um trampo. Uns entraram para o tráfico, outros morreram. O moleque mais próximo de mim naquela época saiu recentemente da cadeia, tava cumprindo pena por roubo. Tive sorte – ou privilégio – de ter sido educado por uma mulher mentalmente estruturada e ciente das malícias da rua, com 21 anos sigo contrariando a estatística.

Mas, voltando a música. Capítulo 4, versículo 3, é a terceira faixa de um dos álbuns mais importantes da música nacional, lançado em 1997, um ano depois antes do meu nascimento, o Sobrevivendo no Inferno.

Abordando temas como racismo, violência policial, crime, pobreza e o massacre do Carandiru. Temas tão importantes e recorrentes no Brasil. Não à toa que em 2018 a Unicamp divulga a nova lista de leitura obrigatória para o seu vestibular para 2020 e inclui o recente lançamento do livro Sobrevivendo no Inferno.

Uma escolha que desagrada grande parte da classe média alta, presente em maioria nas listas de aprovação vestibulares para universidade públicas.

Fui presenteado com o livro no fim do ano passado e terminei de lê-lo em menos de uma semana. Sobrevivendo no Inferno vem com um formato de bíblia até na estética das páginas, com aparência dourada nas bordas, bem tradicional.

O livro parte para análise de parte da história do grupo, a postura política de Mano Brown, a aproximação e exposição da realidade vivida na favela. É uma leitura simples e rápida, já que grande parte do livro é composta por fotos do grupo e as letras do álbum, as análises ganham as primeiras páginas apenas.

E, lendo o livro no fim de 2018, escutando o álbum ainda em 2019. Nada mudou. Ainda tenho medo de não conseguir mais contrair na estatística, de me identificar com aquele preto tipo A que o sistema transforma em só mais um neguinho.

Os negros no Brasil ainda são maioria entre os mortos e vítimas da violência policial. É assustador ver a forma em que o Estado, o sistema judiciário (abordado na música Diário de um detento) e a sociedade tratam com negligência e sem empatia. Os negros e moradores das favelas seguem sobrevivendo no inferno.

Deixo aqui a minha homenagem para o jovem negro Pedro Gonzaga, assassinado de forma covarde por um segurança no Supermercado Extra. Deixo também a minha homenagem para Jenifer Gomes, uma criança de 11 anos, baleada e morta em mais uma triagem e confronto da polícia militar do Rio de Janeiro.

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Dennis Cunha

Paulistano, estudante de Direito, amante da cultura hip-hop e metido a escritor.

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