Quando éramos rainhas e deuses
A ancestralidade da diáspora africana e a deturpação de sua história
Quando éramos rainhas e deuses
A ancestralidade da diáspora africana e a deturpação de sua história

 

No texto anterior, abri uma discussão a respeito da ancestralidade africana, destacando o processo de perda de identidade e colocando em evidência a rica história de alguns reis. Entenda melhor clicando aqui. Dito isso, é extremamente importante apontar o reinado e liderança das mulheres também. Pois, ao contrário do que se imagina, o machismo e patriarcado não teve força no continente africano, ao contrário do que se sabe no tão exaltado continente europeu.

Começando por Ngola Ana Nzinga Mbande, também conhecida como Rainha Ginga. Viveu no período de tráfico de escravos na Angola e demonstrou grande oposição aos governantes portugueses. Suas notórias façanhas ocorreram durante negociações com o governante português Correia de Souza, que, em uma das reuniões, tentou intimidá-la, sentou-se em uma cadeira e pôs uma esteira no chão para a Rainha. Correia de Souza não contava com a lucidez de Ginga ante a situação, que pôs uma escrava de quatro e sentou-se sobre ela, assim, igualando-se ao governante.

Esta é uma das histórias mais famosas de Ginga. Um pouco mais acima de Angola, mais precisamente em Gana, o destaque vai para a Rainha-mãe Yaa Nana Asantewaa. Viveu na época do Império Ashanti, em Ejisu. Conhecida por ser uma mulher forte, defendeu bravamente o seu povo e cultura contra o Império Britânico, em 1900.

Diante de uma exigência específica do representante britânico da época, a entrega do Trono de ouro, o objeto mais sagrado da cultura Ashanti, os homens líderes do império Ashanti estavam inclinados a acatar, quando Yaa Asantewaa tomou a frente da situação e mais tarde, liderou a Guerra do Trono de ouro, também conhecida como A Guerra de Yaa Asantewaa.

Com 60 anos de idade, esteve constantemente no fronte de batalha e até hoje é lembrada pelo povo de Gana como a mulher que defendia aquilo que acreditava, erguendo-se contra os colonizadores europeus. A força da mulher africana sempre fora uma marca do seu povo.

Voltando para as citações, este é um trecho da música “En tu mira”, do rapper Baco Exu do Blues. Começando por dar aos créditos ao Mc, em 2017, Baco lança seu álbum de estreia na cena do rap nacional. Com batidas fortes e batuques dos atabaques do Candomblé e do Maracatu, o rapper nos proporciona uma viagem muito íntima para a Bahia, e também, para seus conflitos. Agora é a vez de ele me ajudar a contar a história da divindade roubada dos africanos.

Em “En tu mira”, Baco revela seus conflitos e o peso da expectativa que o artista carrega. No trecho em destaque, o Mc traz a tona um exemplo da relação que os humanos têm com o conceito de divindade nas religiões africanas.

Enfraquecida pela catequização dos colonizadores, as religiões de matrizes africanas são um símbolo de resistência desde a chegada dos escravizados no Brasil. Os africanos trouxeram ao Brasil o Candomblé, onde usavam as imagens dos santos para escapar da repressão imposta pela Igreja. No culto dos orixás acontecem homenagens, as divindades homenageadas nos rituais são antepassados. Assim acontece o transe da incorporação da energia das divindades celebradas nas pessoas – os cavalos -, que são iniciadas e fazem parte de famílias do terreiro. O fato é que na história de origem do Candomblé, não havia separação entre o Orum, o Céu dos orixás, e o Aiê, a Terra dos humanos. Homens e divindades iam e vinham, habitando no mesmo espaço e dividindo experiências. Éramos deuses, e acreditávamos nisso todos os dias.

Diferente em diversos, pontos a Umbanda surge no Brasil no século XX, sincretiza o catolicismo, espiritismo e as religiões africanas. Em 2010, o IBGE divulgou um censo sobre a população religiosa. Os adeptos da umbanda e do candomblé eram apenas 0,3% da população religiosa no Brasil, historicamente distorcidas e endemoniadas pela Igreja. Em contrapartida, o número de evangélicos é de 22,2% e o de católicos 64,6%. Hoje, os negros representam 54% da população brasileira.

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DENNIS CUNHA

Paulistano, estudante de Direito, amante da cultura hip-hop e metido a escritor.

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