O Quarto de Despejo é Lucro
O Quarto de Despejo é Lucro

Estamos no começo de maio, e como diz a tradição, agora sim o ano começou, passou o carnaval. E no carnaval deste ano, fui apenas para um bloco, o Navio Pirata. Esse bloco é da banda de Salvador, Baiana System. Baiana carrega traços de sound system jamaicano misturado com a guitarra baiana,um estilo único, mas ao mesmo tempo, característico brasileiro, devido a sua originalidade sonora e teor crítico nas letras.

O bloco foi uma aula e uma banho das almas poluídas de São Paulo. Lembro que até choveu muito depois do Sol e calor forte nos acompanhar durante todo o bloco. Com participação do enérgico Bnegão cantando músicas do mais recente álbum “O Futuro Não Demora” da banda. Mas não é deste álbum que falo hoje, e sim de uma música do anterior, a “Lucro (Descomprimindo)”, do álbum Duas Cidades.

Li em uma entrevista da banda que a letra foi criada nos rolês de busão do Russo Passapuso, observando a cidade, suas mudanças e finalmente, externalizando na escrita o sentimento causado pela especulação imobiliária.

E se eu lhes disser que fiz isso também?

Comecei esse ano a fazer trabalho voluntário para uma fundação sem fins lucrativos chamada TETO (TECHO). A TETO nasceu em 1997, no Chile, por um grupo de jovens que decidiram se mover ao perceber as injustiças sociais e necessidades da população mais pobre, com poucos recursos. E, com um esforço simultâneo com os moradores da região de trabalho, são construídas moradias, trazendo mais dignidade para as pessoas que habitam ali.

Mais tarde e de forma organizada, a TETO se espalhou pelo continente e dez anos depois chegou ao Brasil, mas agora não focando apenas em situações emergentes e que necessitam apenas de moradia, mas na infraestrutura geral, escolhida pelos moradores através de enquete. Alguns exemplos de projetos de infraestrutura, além de casas, são: construção de pontes, pavimentação, área de lazer para crianças, etc.

Trabalho na área do jurídico social da TETO, dando informações e traduzindo o juridiquês sobre os processos para os moradores que ocuparam duas comunidades de Ferraz de Vasconcelos, e assim como Passapusso, nas viagens de busão, indo para Ferraz, observei as agonias que a cidade transmite.

Eu vejo falta de saneamento básico, de segurança, de moradia digna, de áreas de lazer, etc.

Eu vejo isso acontecendo em 2019, ainda, num Brasil carregado de negligência com sua histórica e com seu povo.   

Em meio a tudo isso, comecei a ler “Quarto de Despejo – Diário de uma favelada” da Carolina Maria de Jesus. O livro foi escrito na década de 50, na favela do Canindé, e a autora narra a miséria do seu cotidiano. Foi o livro mais impactante devido a proximidade que ele traz a realidade ainda vivida por milhares de pessoas, e tem sido uma experiência muito pesada ler o diário e ver o diário todas as vezes em que vou visitar as comunidades.

“Em 1948, quando começaram a demolir as casas térreas para construir os edifícios, nós, os pobres que residíamos nas habitações coletivas, fomos despejados e ficamos residindo debaixo das pontes. É por isso que eu denomino que a favela é o quarto de despejo de uma cidade. Nós, os pobres, somos os trastes velhos.”, trecho de “Quarto de Despejo – Diário de uma favelada”.

Carolina entendia muito bem sobre a especulação imobiliária já neste trecho do livro, digo isso e lembro-me de uma recente desocupação violenta relatada pelos ex-moradores da comunidade de Cimentos, zona leste de São Paulo. Incêndio no mínimo duvidoso, ocorrendo horas antes da reintegração de posse da área.

Conversando com o Bruno Santana, amigo, ativista, estudante de arquitetura e colaborador do site, descobri um artigo sobre uma tal “parceria público-privada de habitação”, e lendo o texto, entendi o quanto isso prejudicará os moradores. Basicamente, o projeto tende a remover três mil famílias de suas casas e implantar empreendimentos, favorecendo o mercado e impulsionando a reintegração de posse.

Então, refletindo sobre isso, entendo que a prefeitura, o Estado, tem total conhecimento e olhos voltados para as ocupações, quando há interesse. Os moradores preocupados em ter acesso a água, luz e uma possível reintegração de posse podem ter certeza de que não foram esquecidos, e que o descaso é mais que proposital. O quarto de despejo só faz sentido, quando gera lucro. Máquina de lucro.

Foto: Favela do Paraisópolis e prédios, por Tuca Vieira.

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PAULISTANO, ESTUDANTE DE DIREITO, AMANTE DA CULTURA HIP-HOP E METIDO A ESCRITOR.

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