Lembrai de Carolina
Lembrai de Carolina

Lembra quem foi homenageada por seus 105 anos, com homenagem até pelo Google? E quem teve sua história adaptada para os quadrinhos e premiada internacionalmente? É bem provável que você não se lembre, mas para as duas perguntas a resposta é: Carolina de Jesus.

A escritora do livro “Quarto de Despejo” faria 105 anos no último dia 14 de março e foi lembrada por alguns veículos e portais de relevância.

Mas já foi esquecida novamente.

Em celebração a Carolina de Jesus, o Êxodo entrevistou João Pinheiro, autor da HQ “Carolina” em dupla com Sirlene Barbosa, obra premiada no Festival de Angoulême, um dos principais festivais de quadrinhos do mundo! Na conversa, falamos sobre a memória e a importância de Carolina.

Esse ano marca o aniversário de 105 anos de Carolina de Jesus. Vocês viram esse momento de forma diferente após terem feito a obra “Carolina”?

A ideia de fazer a HQ surgiu em 2013 por sabermos que em 2014 seria seu centenário. Naquele ano, ocorreram muitos eventos em comemoração à efeméride e desde então Carolina tem se tornado cada vez mais conhecida, isso é o que podemos constatar.

Vocês acreditam que há hoje um novo olhar para a vida e obra de Carolina de Jesus na sociedade?

Sim, sentimos que ela está sendo redescoberta por mais pessoas, principalmente pelos mais jovens – o que é um ótimo sinal. Mas ainda achamos que é preciso trabalhar por mais reconhecimento e exposição para a obra dessa fundamental escritora brasileira.

O aniversário de Carolina de Jesus possuiu homenagem até no Google. Como vocês veem que isso pode ter impactado as pessoas?

A nosso ver, a “femenagem”, como a Sirlene faz questão de dizer, é um resultado direto da luta geral dos negros na sociedade brasileira, em especial das mulheres negras, por maior espaço em todos os campos de atuação, inclusive na literatura, portanto essa é uma vitória desse movimento de resistência. Por outro lado, Carolina nunca foi esquecida dentro da cultura periférica e negra e segue influenciando novas gerações em saraus, rinhas de MC’s, Slams e escolas das quebradas. Escritores como o Ferréz, por exemplo, sempre pagam tributo a Carolina como uma precursora da literatura periférica e marginal; Escritoras contemporâneos importantes como a Débora Garcia e o Sacolinha tem a obra Caroliniana entre suas maiores referências.

Falando sobre a HQ “Carolina”, como vocês receberam a notícia do prêmio em Angoulême?

Com entusiasmo é claro e surpresa.

Há outras escritoras que vocês gostariam de adaptar para os quadrinhos ou que gostariam que fossem adaptadas e/ou homenageadas como Carolina de Jesus?

Sim, muitas histórias precisam ser contadas a respeito dos negros e negras do nosso país. Isso ainda nem começou a ser explorado.

Para finalizar, após mais de dois anos do lançamento da HQ, no Brasil atual, vocês veem que a importância de Carolina, tanto a HQ quanto a escritora mudaram?  

Carolina e sua obra sempre serão atuais e importantes enquanto a estrutura escravocrata da nossa sociedade não for alterada. No Brasil atual corremos o risco de que forças antagônicas tentem apagar novamente Carolina da vida cultural brasileira, mas felizmente há bastante resistência também. Carolina vive!

Imagem: Trecho da HQ Carolina, de Sirlene Barbosa e João Pinheiro; Editora Veneta.

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Gustavo Nogueira

estudante de jornalismo, formado em cinema na lafilm institute, autor do livro "quadro a quadro". além do êxodo, é colaborador do universo hq.

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