Estranhos Frutos...
A violência é ingrediente cotidiano na vida dos de baixo. Desde quando seus corpos negros eram pendurados nos álamos do sul dos EUA.*
Estranhos Frutos
A violência é ingrediente cotidiano na vida dos de baixo. Desde quando seus corpos negros eram pendurados nos álamos do sul dos EUA.*

A dominação do homem pelo homem plantou na sociedade uma frondosa árvore de brutalidade. Violação que tem classe, gênero e raça. Todas elas integrantes de um corpo que alimenta um sistema que descarrega ódio disfarçado de liberdade, desigualdade disfarçada de diferença, e espíritos de velhos fantasmas. No Brasil edificado pela barbárie escravista, se conhece de perto a violência.

Cotidiana e flagrante, este ingrediente não encontra na vida diária dos jovens e trabalhadores, meios para transformar o ódio a nós escarrado todo dia, em energia para transformar o mundo em que vivemos. Sofremos nós, homens e mulheres negras, silenciados por 519 anos. Nosso martírio no entanto, quando resistimos, nossa fúria jamais teve um fim em si mesmo, muito menos expressão espelhada da agressão que nos trouxe de África até aqui. A instituição racista que nos desumaniza todos os dias, pelo contrário, é o que sempre moveu nossa resistência em última instância, do Araguaia a Canudos.

Vivemos na era dos novos monstros que impedem o velho mundo de cair. A supremacia da violência, instrumento mais bem acabado da sociedade atual, rompeu a fronteira do mundo físico. Os monstros nascem de hospedeiros virtuais, onde a violência do mundo fabrica ideias distorcidas, fora do lugar. De uma sala de chat virtual da darknet [1] podem nascer soldados com ou sem causa.

O primeiro tipo, resignado, consome opiniões fabricadas para os smartphones, de think tanks ou de gurus do YouTube. Para este, em um mundo atravessado pela normatização repressiva, que mata e manda matar todos os dias, falta ordem. Os desvios morais produzem promiscuidade e degeneração. Mas afinal quando vivemos neste mundo repleto de Ordem e Progresso que proclamam? O imaginário destes indivíduos consome fábulas de um país pacífico e hospitaleiro. Pois certamente não foi este país que fez cair os Malês [2], ou enviou uma judia grávida a ser abatida nos campos de concentração de Hitler [3].

No país da candelária [4] e do carandiru [5], não existe racismo, existe degeneração, mau caráter e vitimismo. O tão afamado vitimismo que pariu do ventre adoecido da ‘pátria amada’ um outro tipo de monstro. Nasce o soldado com causa, aquele que encontra em grupos de ódio, plateia para socializar suas frustrações. Afinal no capitalismo apenas a barbárie é socializada.

Nos porões destas salas virtuais brotam frutos podres, vindos da mesma árvore decrépita que fundou o mundo de opressão em que vivemos. Como dissemos, este fruto ainda que estragado, faz seu fedor chamar atenção. Tem audiência, público sedento que aprende com espanto que foi traído, enganado e brutalizado pelo ‘feminismo’, pelos ‘comunistas’ e pelos ‘negros’ ingratos, cismados e rebeldes.

E desta sala saem os rebeldes com causa, nome, classe e endereço. Os bravos guerreiros da frustração. Estes que dispararam sobre crianças suas ideias fora do lugar, instrumentalizadas por armas de fogo, em Columbine e em Suzano. Estes indivíduos ganharam a atenção que tanto queriam, se tornando mártires de causas deformadas, vazias e tão inférteis quanto o termo que usam para designar a si mesmos (Involuntary Cellibates [5]).

Sua frustração [6] não está  na estrutura patriarcal e sexista  que nos educa desde o berço. Está na humilhação de nunca ter se relacionado com alguma mulher, seu alvo favorito nos chans [7] e na decadente vida social que levam. A misoginia e o racismo se tornam reação, o martírio que investe contra seus “opressores” é o supremo ato de coragem glorificado nos umbrais da internet. As razões de suas dores, são vistas com sensibilidade pela mídia e pela opinião chocada com seus atentados. A eles se prestam todos os cuidados, afinal, isoladamente o mal-estar da vida escolar é o que angustia a alma dos pobres diabos. As ideias fora do lugar, que edificaram em seus espíritos o conteúdo de seus atos não são debatidos. Os criadouros de ódio aos direitos humanos e à minorias étnicas e sociais é de onde vêm esses rebeldes sem causa. O bullying é aspecto secundário deste fenômeno; mas não importa, porque toda atenção a estes problemas é dada, quando a vítima não é escandalosa como uma mulher, ingrata como um pobre, vitimista como uma travesti ou dissimulado como um negro. A realidade é coberta com um véu, e a máquina de fazer vilões continua intocada.

Desta forma, a comoção tem cor, classe, endereço e gênero. E é escolhida a dedo. De Caracas à Moçambique ou pela Favela do Cimento, flagrante é a tragédia quando ela é branca. Negra solidão… A violência branca é acidente, desvio, trauma, fruta podre para o descarte junto à promessa de que ela não afetará as demais. Sobre nós, a violência é exceção, vitimismo, sujeitas às mais torpes indagações. Nossa reação é revolta, exagero, crime e castigo.

Não se espanta com a miséria e a sujeição dos oprimidos, do contrário, ela é compartilhada e tem audiência. Não à toa um vídeo contando “a verdade sobre 1964”, veiculado por um canal de defensores da moral e dos bons costumes está entre os mais assistidos do YouTube durante estas semanas. Revisar e normatizar a dominação é agora o instrumento dos poderosos, de Suzano aos Comandos Militares no Rio de Janeiro.

80 tiros [8], 111 presos [9], 19 sem-terra [10], 868 transsexuais ou travestis [11], 71 negros por ano [12], 6 mulheres a cada hora [13]. São os nossos que caem na sombra da raiz da mesma árvore que plantou pelos poderosos sobre nós, a insígnia da violência. Nos resta estar vivo para transformar a agressão em coragem, e arrancar desta árvore os frutos e as sementes da opressão. Para que um dia nos reconheçamos como donos deste mundo, construamos nele outro horizonte e sejamos livres do início ao fim.

Notas:

*Nos EUA, durante o auge do apartheid estadunidense, era comum nos estados do Sul ver corpos negros enforcados pela Ku Kux Klan pendurados nas árvores. Esta prática perdura até hoje no país, e inspirou canções como Strange Fruit de Nina Simone

[1] Darknet é a parte oculta da internet convencional, onde além de encontrar segredos de Estado, artigos e livros científicos é possível fazer parte de grupos de extrema-direita que fomentam o fundamentalismo religioso e o armamentismo.

[2] A Revolta dos Malês foi uma insurreição de escravos vindos do Mali no nordeste do Brasil, duramente reprimida pelo Império.

[3] Olga Benário, militante comunista alemã e companheira de Luís Carlos Prestes, foi presa pela ditadura Varguista e deportada para a Alemanha Nazista, mesmo estando grávida e sendo judia.

[4]  O massacre da igreja da Candelária promovido por grupos de extermínio, matou 19 jovens no Rio de Janeiro

[5] Involuntary Cellibates (Celibatários Involuntário, ou INCEL), são como se denominam os membros de grupos de redes sociais como a Reddit. Os INCEL se reúnem em chats virtuais para compartilhar suas frustrações com a vida social, e destilar ódio às mulheres e à minorias étnicas ou sociais

[6]https://www.vice.com/pt_br/article/zm8v3e/incel-massacre-realengo-dogolachan-homini-sanctus-marcello-valle-silveira-mello

[7] Chans são salas de chat virtuais onde se reúnem os INCEL. Estas salas produzem conteúdo misógino e odioso em seus tópicos, e alimentam em outras redes sociais como o Facebook seus ataques.

[8] No dia 8 de abril de 2019, uma família foi fuzilada por membros das forças armadas enquanto voltava pra casa, no Rio de Janeiro.

[9] O Massacre do Carandiru foi uma iniciativa do governo de São Paulo que chacinou 111 presos, sob a alegação de estarem envolvidos com rebeliões. Com tiros nas costas e execuções sumárias, as vítimas foram executadas sem que os responsáveis tenham sido punidos até hoje.

[10] O massacre de Eldorado dos Carajás foi uma empreitada de milícias rurais armadas contra militantes do Movimento dos Sem-Terra (MST)

[11]  O Brasil é o país que mais mata a população transsexual ou travesti no mundo

[12] 70% das mortes causadas por intervenção policial vitimam a população negra

[13] O Brasil possui um dos maiores índices de violência doméstica do mundo.

Referências:

https://www.vice.com/pt_br/article/wj3qay/e-a-frustracao-masculina-que-decide-os-rumos-politicos-do-brasil-hoje

https://www.vice.com/pt_br/article/zmgyg3/extrema-direita-livro-jovens

https://www.vice.com/pt_br/article/7xqw3g/como-e-a-vida-de-um-incel

https://www.vice.com/pt_br/article/zm8v3e/incel-massacre-realengo-dogolachan-homini-sanctus-marcello-valle-silveira-mello

https://www.vice.com/pt_br/article/7xnjmg/ministerio-publico-vai-apurar-envolvimento-de-chan-no-massacre-em-suzano

https://www.vice.com/pt_br/article/xwm8ya/pf-prende-notorio-troll-racista-misogino-e-homofobico-das-redes-brasileiras?utm_source=stylizedembed_vice.com&utm_campaign=zm8v3e&site=vice

https://www.vice.com/pt_br/article/gyj3yw/como-o-reddit-esta-ensinando-homens-jovens-a-odiar-mulheres?utm_source=stylizedembed_vice.com&utm_campaign=zm8v3e&site=vice

Imagem: Foto de Dorothy Counts, primeira aluna negra da Universidade de Harry Harding e enfrentou o racismo diariamente

Últimas matérias

Bruno Santana

Estudante de arquitetura e urbanismo, pesquisador e membro do coletivo de faculdades de arquitetura entre:FAUs

ENVIE A SUA MENSAGEM

ENVIE A SUA MENSAGEM