Entrevista, mano
Entrevista, Mano

O crescimento do podcast no Brasil tem sido exponencial e a cada momento surgem mais e melhores programas. O Êxodo entrevistou Thiago Leve e Matheus Barros, dois dos criadores do “Podcast, Mano”, programa sobre rap e hip-hop, que chamou muita atenção no último ano, figurando em listas de melhores do ano.

Na conversa podemos conhecer um pouco da criação, suas experiências no podcast e, é claro, falar um pouco sobre rap.

Como surgiu o Podcast, Mano?

Thiago Leve: Em 2016, quando entrei na Genius Brasil, tinha acabado de descobrir a mídia podcast. Faziamos algumas reuniões via hangout, onde discutimos alguns assuntos e novas ideias. Em uma dessas, eu propus a ideia de fazer um podcast da Genius Brasil. Porém, de todos presentes, somente o Matheus Barros demonstrou interesse. Propus mais algumas vezes, mas o resultado foi sempre o mesmo e esse projeto ficou engavetado até novembro de 2017.

Foi mais ou menos essa época que o Paulo Silva entrou para a Genius. O Matheus apresentou a ideia à ele e ele se interessou. Porém, como éramos apenas três membros da equipe, decidimos batizar o podcast com outro nome. Criei um grupo no Whatsapp com o nome “Podcast, mano” como uma brincadeira, devido aos bordões do Raffa Moreira terem se tornado um meme. Os caras acharam engraçado e decidiram adotar o mesmo.

Após ouvirem o primeiro episódio, o Lucas Wildemberg e o Henrique Ramos também interessaram-se pelo projeto. E assim foi composta a equipe administrativa do podcast.

O podcast é uma mídia relativamente nova, por que vocês decidiram fazer neste formato? Vocês cogitaram outro formato?

Matheus Barros: Em 2017 eu comecei a ouvir bastante podcast, era algo extremamente prático e acessível, você pode ouvir facilmente em qualquer lugar fazendo outras coisas e também é fácil de se fazer, apesar da baixa qualidade, com um celular na mão você consegue gravar algo pra disponibilizar na internet.

Então, o Thiago veio com a ideia da gente gravar conversas de interesses em comum, porque a gente não podia se encontrar, geral da Genius vive em cidades diferentes no Brasil inteiro, mas tínhamos assuntos em comum. E lembro até que, mesmo que não fosse algo sobre rap, a gente queria realmente fazer podcast, pois tínhamos ideias de fazermos algo falando sobre séries, principalmente Game of Thrones. Então nunca cogitamos outro formato, essa era nossa intenção desde o início.

Aí quando o Paulo entrou no Genius e fechou com a ideia, já colocamos em prática. O primeiro episódio a gente gravou na semana do natal de 2017. Mas só ressaltando que a gente planeja ampliar a parada, vai ter vídeos também.

O ano passado é visto para muitos como um marco para os podcast, devido a criação do Google Podcasts e a inserção de podcast no Spotify. 2018 também é o início do Podcast, Mano, como foi iniciar um podcast em um ano de tantas transformações?

MB: Olha, inicialmente, eu acho que nunca imaginaríamos chegar até aqui ou levar isso tão a sério, a gente só queria trocar uma ideia entre nós e, por consequência e por influência de sabermos da existência de podcasts, resolvemos disponibilizar essa ideia na internet. Então, nos primeiros meses a gente fez sem compromisso nenhum, tanto que tem espaços de semanas entre um episódio e outro. Só que, naturalmente, a galera foi interagindo, dando feedbacks, trocando ideia, foi surgindo convidados como Rodrigo Zin, Marcílio Gabriel, Negus, Marco Gomes, Load, etc., e aí o Lucas manja de sites, webdesign e essas fita e acabou montando um site pra gente e tudo isso foi aumentando. Se pá que por coincidência foi o ano em que Google e Spotify investiram em podcast, mas não foi algo planejado inicialmente por nós. E aí do meio do ano passado, mais ou menos, até aqui, a gente tem levado isso muito a sério, esse ano a gente vai chegar mais forte ainda.

Pelo ponto de vista do tipo de conteúdo, o Podcast, Mano pode ser visto como um dos pioneiros do estilo no podcast. Vocês tiveram alguma referência para a criação do podcast?

TL: Na verdade, já existiam pelo menos dois podcasts relacionados a cultura Hip-Hop antes do nosso. O primeiro que se tem notícia é o Programa Freestyle, apresentado desde 2006 pelo Marcílio Gabriel, que tornou-se nosso amigo após algumas conversas e a participação do episódio “11 – Sobrevivendo no Inferno | Destrinchando Discos”. O segundo é o RapStream, criado em 2015, que o Negus (Nego-E) é co-criador e também tornou-se nosso amigo durante a produção do episódio “8 – Atlanta”.

Quando criamos o podcast, alguns de nós escutavam o “Letracast”, que o conteúdo serviu como inspiração e referência de produção ao nosso quadro “Destrinchando”.

O conteúdo tratado por vocês (rap, periferia e cultura afro) é raro na mídia e nos podcasts são ainda mais raros. Como foi a recepção do público?

MB: A recepção está sendo a melhor possível, a gente sempre se surpreende a cada episódio, porque, querendo ou não, a gente fica naquela neura de “será que tá firmeza? será que falta informação? será que falamos alguma parada que os fãs podem se incomodar?”, mas até aqui tem sido ótimo. Só temos recebido elogios e isso nos dá um gás pra continuar fazendo cada vez mais e melhorar sempre.

TL: No começo – uns 7 meses depois da criação – nós não recebíamos muitos feedbacks e nem muita divulgação espontânea. Porém, com o passar do tempo, meio que houve um “BOOM” de divulgação. Todo episódio nós recebemos pelo menos uns 3 “textões” da galera avaliando o episódio e dando suas impressões sobre o assunto, sem contar as dezenas de outras interações que ocorrem nas em nossas redes diariamente.

Já por parte de outras mídias e portais, esse fim de ano de 2018 foi meio surreal para nós. Fomos indicados a melhores do ano e saímos em algumas outras listas, como a Red Bull, BuzzFeed e o portal Kondzilla.

Indo para os assuntos abordados, vocês falam do rap nacional e internacional, e do mais antigo ao mais novo. Como vocês buscam abordar esses conteúdos, sendo que muitos deles possuem fãs?    

MB: Isso é uma parada que temos discutido ultimamente, a forma como abordamos os assuntos. O rap nunca foi pauta principal nas grandes mídias e sempre abordado de uma forma marginalizada. A mídia que temos para o rap é de nós para nós praticamente, abordado de uma forma que fica só entre nós, então acaba ficando só na bolha, né?

Acho que falta uma parada mais profissional. Então acredito que a gente tenta fazer o possível para que o conteúdo seja o mais acessível e minucioso, sempre falamos entre nós: “gente, tenta explicar algumas gírias regionais”, “explique as referências que só quem é do rap conhece”, “deem um contexto dos grupos e rappers citados”, porque não é todos que tão nesse nicho diariamente, né? Apesar de gostarem de rap. E o podcast também abre essa possibilidade de ficarmos 2 horas conversando e a galera ouvir de boa e curtir, porque imagina você assistir um vídeo no YT de 2 horas? É foda.

Resumindo, até hoje, ocorreu tudo firmeza, porque realmente mexer com fãs é um bagulho complicado, se tu vacilar em um detalhe, caem em cima.

O que seria para vocês o rap “das antigas” e o da nova geração? Há formas diferentes de tratar as diferentes gerações de rap?

MB: Hoje isso é complicado. As vezes temos no nosso subconsciente que o rap das antigas é o dos anos 90 e aí tem aquela geração underground dos 2000 e a nova geração seria a do Proemishid (Projota, Emicida e Rashid). Mas, porra, Proemishid já tem 10 anos, já surgiu aí, pelo menos, 2 ou 3 gerações. Já tá se formando uma nova geração pós-BK/Djonga/Baco. Então esses termos aí já é complicado de usar. Mas a gente não tem um modo diferente de tratar as gerações dentro do podcast, mas com certeza há modos diferentes de interpretar e analisar cada geração.

É perceptível a grande quantidade de pesquisa sobre diversos rappers e conteúdos relacionados feito por vocês para a criação de um episódio. Como é o processo de criação de roteiro e tema do podcast?

MB: Pra falar a real, o rap é o gênero que mais toca nos fones dos integrantes do podcast e estamos em contato com ele todos os dias, afinal trampamos indiretamente com isso, uns fortalece na correria do Genius e o Paulo e o Ramos, por exemplo, trampam com audiovisual e muito do conteúdo é voltado pro rap.

Com isso, inevitavelmente, todos já tem um conhecimento legal sobre as novidades e o que rola dentro do rap, então sobre esses conteúdos relacionados e todos os comentários feitos dentro dos episódios são naturais de conhecimento de cada um para complementar as ideias.

Agora, sobre o tema principal do podcast, com certeza é feita uma pesquisa detalhada, a gente monta uma estrutura pro roteiro dependendo do quadro e vamos pegando informações em entrevistas e declarações, além de deixar alguns comentários pessoais e interpretações já no próprio roteiro para gente ter um norte do início ao fim do episódio.

Mas não temos um processo de criação de temas, a gente tem sim quadros específicos e escolhemos aleatoriamente de acordo com o gosto pessoal de cada um sobre quem ou o quê falaremos na próxima edição dos quadros. Também tentamos ficar de olho ao que está sendo mais comentado ou pedido.

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estudante de jornalismo, formado em cinema na lafilm institute, autor do livro "quadro a quadro". além do êxodo, é colaborador do universo hq.

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