Entre o Mundo e Eu e a paternidade
Entre o Mundo e Eu e a paternidade

Em um dia desses, mexendo no instagram, o Emicida postou no perfil dele uma indicação do livro Entre o Mundo e eu.

Eu, fã que sou, tanto de livros como do Emicida, pesquisei a respeito da indicação e o comprei logo em seguida.

Entre o Mundo e Eu foi escrito pelo jornalista americano Ta-Nehisi Coates, que também escreveu a fase dos quadrinhos “Uma Nação Sob Nossos Pés” do super-herói da Marvel Pantera Negra e é roteirista da atual fase do Capitão América, ainda inédita no Brasil.

Filho de militantes do movimento negro, o pai, por exemplo, ex-integrante do Partido dos Panteras Negras, Coates utiliza de suas experiências pessoais na criação de um livro bem íntimo, uma carta pessoal ao filho dele, e, sobretudo, um manual de como sobreviver no corpo de um homem negro nos EUA.

Questionando constantemente o que é habitar no corpo negro, o escritor debate sobre o racismo institucional e questiona o lugar do negro na sociedade. Com certeza, o livro mais importante que li sobre racismo e o que me fez abrir os olhos tratando-se de paternidade. Eu leria Entre o Mundo e Eu como um “conselheiro” na construção de ser um pai, especialmente de uma criança preta.

No último texto, abri uma reflexão sobre uma música, saúde mental e falei um pouco a respeito da minha experiência pessoal com a paternidade.

E tratando-se de paternidade, moramos em um país problemático com o tema.

Segundo dados do IBGE, em 10 anos, o Brasil chegou ao número de 1,1 milhão de famílias compostas pelo termo “mãe solo”. O termo leva a uma perspectiva em que mães solteiras são as únicas responsáveis na criação dos filhos, onde o abandono paternal acontece de forma cruel, pensando ainda que esses filhos são frutos de uma gravidez indesejada, somando com pessoas de origem periférica, com uma situação financeira de baixa-renda.

Mães solo desdobram-se diariamente para oferecer uma criação justa num país desigual.

Não é à toa a existência de um serviço oferecido pelo Poupatempo chamado “Encontre seu Pai Aqui”, que busca o reconhecimento de paternidade, e também, a diminuição no índice de abandono.

Mas, quando não ocorre o abandono, os pais, sobretudo pretos, conseguem proteger os filhos dos próprios traumas?

Crianças pretas precisam de uma preparação – sutil, claro – contra o racismo muito antes do que o primeiro contato com a escola.

A vulnerabilidade dessas crianças no enfrentamento racial é assustadora, visto que é uma fase de formação, e dependendo da intensidade, o racismo deixa feridas que não são curadas com o tempo, atrapalhando todo um desenvolvimento.

Quando a atriz, Taís Araújo, fala em uma apresentação ao TEDx Talks sobre a relação que o filho dela pode ter com o racismo logo cedo, podemos entender sobre a proteção que uma criança preta precisa desde pequena.

Ta-Nehisi Coates nos ensina, de uma forma bonita e traumática, o que os homens precisam começar a fazer em um processo de criação, demonstra o quanto é importante à presença paternal, os diálogos que vão além de sexualidade e drogas, mais do que “ensinar a ser homem”, mas tratando-se de crianças pretas, a proteção dos seus corpos desde muito antes de saberem que são crianças pretas.

Imagem: Divulgação Moonlight; dir.: Barry Jenkins; Plan B Entertainment, A24

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Dennis Cunha

Paulistano, estudante de Direito, amante da cultura hip-hop e metido a escritor.

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