De Maio e o Jornalismo em Quadrinhos
Veja a entrevista com um dos pioneiros do jornalismo em quadrinhos no Brasil
De Maio e o Jornalismo em Quadrinhos
Veja a entrevista com um dos pioneiros do jornalismo em quadrinhos no Brasil

Alexandre de Maio é um dos pioneiros do jornalismo em quadrinhos no Brasil. Suas matérias já foram publicadas em grandes jornais, como O Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo e Veja. Em parceria com o escritor Ferréz, lançou “Os Inimigos Não Mandam Flores” e “Desterro”, o segundo já viajou o mundo, lançado na França pela Editora Anacaona.

O trabalho de De Maio têm crescido em importância social, com matéria fortes sobre a periferia, e ganhado grande respaldo da crítica, sendo premiado nacional e internacionalmente.

Em 2018, lançou dois grandes quadrinhos, “Raul”, sobre um jovem que vive entre o crime e o sonho de ser rapper, e “Minas da Varzea”, contando a história de meninas que buscam ser jogadoras de futebol.

De Maio deu uma entrevista ao Êxodo contando um pouco de sua carreira, processo criativo e projetos.

Seu projeto, o Raul, é uma HQ bem diferente do que há atualmente no mercado de quadrinhos, por ser um quadrinho jornalístico. Como você encontrou essa forma de fazer jornalismo?

Cara, para mim foi natural, porque com 20 anos eu lancei a revista Rap Brasil, então eu já fazia o jornalismo em si, como jornalista mais tradicional. Essa revista que eu lancei em 1999 tinha 16 páginas de quadrinho, depois com o tempo acabei não conseguindo fazer as duas coisas, larguei.

Depois, em 2006, eu lancei um quadrinho de ficção com o Ferréz e só em 2010 eu juntei as duas coisas que eu já fazia, juntei em uma coisa que aí eu não precisava das duas coisas separadas. Então para mim foi um caminho meio natural, primeiro eu trampei como jornalista, fazia quadrinhos e as coisas juntaram.

Lógico que eu tinha como referência o Joe Sacco, Maus e eu vi a chance de também no Brasil fazer jornalismo em quadrinhos era um jeito de conseguir publicar mais quadrinhos, porque o trabalho autoral, de fazer um livro, vender, lançar, ele é muito lento, então eu queria desenhar, publicar e o público ler. O jornalismo para mim já era isso, eu conseguia escrever e as pessoas lerem e aí eu juntei as duas coisas, ficou ótimo!

Eu consegui produzir mais de 48 matérias de jornalismo em quadrinhos nos últimos 5 anos, então eu publiquei muitas histórias, muita coisa legal, que se fosse em livros autorais eu não conseguiria nunca ter abordado tantos temas quanto consegui.

O jornalismo em quadrinhos ainda é muito raro no mundo, e mais raro ainda no Brasil. Como foi a recepção do público?

Acho que você paga o preço de ser pioneiro, não tem como você ser popular e ao mesmo tempo pioneiro. Quando você lança alguma coisa que é meio diferente, você sofre por ter que explicar para todo mundo. Tanto no meio jornalístico eu tenho que explicar, quanto no meio dos quadrinhos.

Por outro lado, causa interesse por ser uma coisa diferente do que vem sendo feito tanto no jornalismo, como nos quadrinhos.

Mas tem sido muito legal, o público recebe bem. Em diversos veículos, as matérias têm tido muita audiência, porque elas sempre envolvem um tema muito forte e o desenho ajuda a potencializar. Então eu não tenho do que reclamar, tenho conseguido publicar em muitos lugares e tem sido bem legal.

Os temas abordados em seus trabalhos são, em grande parte, ligados a periferia, temáticas praticamente esquecidas pelo jornalismo tradicional. Por que você quis dar foco a essas temáticas?

Justamente pelo o que você falou, por ter pouca cobertura e também porque era a experiência que eu tinha, de repente, se eu fosse milionário eu ia escrever sobre turismo [risos].

Ainda mais fazendo a Rap Brasil eu conheci muito o Brasil e os problemas sociais de perto. Além de viver isso, indo pra rua e fazendo matéria, produzindo conteúdo sobre essas questões, isso acaba fazendo parte da sua vida e aí naturalmente você faz uma pauta mais nessa linha e outras pautas que chamam pra isso, então pra mim acho que foi bem natural.

Eu não pensei um dia: “vou fazer jornalismo de periferia” ou “vou fazer jornalismo sobre causas sociais”, eu queria fazer sobre coisas que estavam acontecendo e eram pouco relatadas e fazer de um jeito sério, vivendo o que está acontecendo, indo a campo, conhecendo as coisas.

Era um jeito de dar voz e divulgar coisas que não estavam muito em evidência. E o quadrinho, o super-herói, tudo isso sempre foi um lance de dar voz a quem não tem voz. Aprendi com os quadrinhos e com os super-heróis um pouco disso, de a gente poder, com X-Men e tantos temas legais, a dar voz a problemas sociais.

Você tem uma ferramenta que é o desenho, você consegue contribuir com isso. O primeiro quadrinho que eu fiz na vida com 18 anos já era sobre uma bala perdida que tinha acontecido na minha rua, era o que me tocava como pessoa e isso acabou transparecendo no trabalho.

Como nasceu o “Minas da Várzea”, um dos seus últimos lançamentos?

Nessas andanças por tantos projetos ligados a periferia, eu acompanhei o nascimento de um projeto muito bacana que é o “Mural”, jornalistas da periferia juntos querendo oferecer uma cobertura com mais propriedade sobre a periferia e há muito tempo eu acompanho o trabalho do Mural e eu tive essa oportunidade da mesa aqui na CCXP. Conversei com eles sobre produzir uma matéria juntos e conseguir lançar aqui e foi o que a gente fez.

Debatemos algumas pautas, escolhemos alguns temas que tínhamos na cabeça e junto com os jornalistas do Mural, fizemos uma matéria sobre as meninas da várzea.

No meu trabalho eu tenho feito coisa com muita gente, fiz coisa com o Greenpeace, fiz muita coisa com o Ferréz. E acho que é até uma característica do jornalismo, produzir matérias com outros jornalistas. São projeto bacanas.

Isso sempre acaba levando seu quadrinho para outros públicos também. É mais do que um projeto em que a matéria é legal, mas também o projeto em que ela está, que ela está ajudando, que ela envolve, que ela divulga também tem muita propriedade para falar.

A gente fez uma matéria em Parelheiros, as jornalistas moram em Parelheiros, por isso que a gente conseguiu encontrar uma aldeia indígena com meninas que jogam futebol que é algo que só quem mora lá que sabe, não tá na imprensa, a gente está descobrindo novos personagens, novos talentos, novas histórias.

Analisando a questão artística, em “Raul”, sua maior obra até o momento, você muda o seu estilo de traço, de desenho, como foi isso para você?

Eu estou há muitos anos com o mesmo estilo de desenho bem mais realista e eu queria um desafio estético nesse trabalho. Queria juntar desafios, com o formato em relação ao o que é uma entrevista e jornalismo em quadrinhos e eu vi que era uma oportunidade boa, já que eu ia sentar pra fazer esse projeto, então era uma oportunidade boa de também me propor um novo desafio estético quanto ao traço, formato…

Eu trabalhei com a [Mesa Digitalizadora] Cintiq e queria usar as vantagens dela, não somente reproduzir uma coisa que faria no papel no digital. Eu queria poder utilizar ferramentas da Cintiq, como desenhar com o branco com mais facilidade, você tem muitos recursos.

Era isso o que eu queria fazer, dar um choque na carreira artística.

No jornalismo em quadrinhos você produz muito rápido, você tem poucas oportunidades de testar um traço diferente e no livro você tem um pouco mais de tempo e aí eu fiz essa loucura de fazer as duas coisas junto, mas foi legal.

Quais são seus próximos projetos?

Tem um projeto meu com o Ferréz que chama Voadores, é um novo livro que a gente está trabalhando no roteiro ainda, então é coisa mais pra frente.

Imagem: Trecho de Desterro, de Ferréz e Alexandre de Maio

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Gustavo Nogueira

estudante de jornalismo, formado em cinema na lafilm institute, autor do livro "quadro a quadro". além do êxodo, é colaborador do universo hq.

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