Black Alien e a celebração da sobriedade

Black Alien e a celebração da sobriedade
Black Alien e a celebração da sobriedade

Gustavo de Almeida Ribeiro, o Gustavo de Nikiti, ou como é mais conhecido, Black Alien, um dos rappers mais respeitados da cena, lança seu terceiro álbum de estúdio.

Depois de Babylon By Gus – Vol. I: O Ano Do Macaco (2004), a participação no Planet Hemp, colaborações com outros artistas, como o lendário Sabotage, o segundo lançamento de álbum e a conhecida luta contra as drogas…

Luta que o artista deixou claro em entrevistas e em uma minissérie de seis episódios sobre o processo de criação do segundo álbum, o Babylon By Gus – Vol. II: No Príncipio Era O Verbo (2015) período em que ainda estava em processo de recuperação. Neste novo álbum, Gustavo ainda tem algumas coisas que precisam ser faladas e principalmente, ouvidas.

No álbum Abaixo de Zero: Hello Hell, Black Alien faz jus ao seu apelido, originado na época da escola, em que ele estudava em um colégio carioca de classe média e era um dos únicos alunos negros, sentindo-se fora daquele mundo, um alienígena negro. As linhas sinceras e o flow sempre tranquilo do rapper falando de todas as suas cargas e dessa nova vitória são de outro mundo.

O diálogo que o artista traz para o público sobre seus demônios é deixado já na segunda faixa “Carta pra Amy”. Amy Winehouse foi uma incrível cantora que teve a trágica morte em 2011, após tomar doses excessivas de álcool. Na época, falou-se muito da pressão da artista e seus problemas psicológicos. E a identificação fica no desabafo das linhas abaixo:

Logo depois, Alien nos traz uma love song, boa pra bater de frente com a romântica “Como Eu Te Quero” do primeiro álbum, fica a dica aí pra dedicar pra elx.

E aí vem o single do álbum, a “Que Nem O Meu Cachorro”. Traduzindo bem, nessa música ele está falando pra todo mundo “tô tranquilo gente, minha paz está intacta”, diferente de tempos atrás. E isso é importante e reafirmado na música seguinte “Take Ten”, nos versos:

Mais tarde no álbum, falo agora sobre a faixa que considero mais mais forte e a última que analiso aqui.

Em “Aniversário de Sobriedade”, Black Alien traduz o que foi cair em si sobre estar viciado em drogas, usando-as nos estúdios, influenciando negativamente e diretamente no seu processo criativo, refletindo sobre quem as usa e o porquê as usa. Gustavo fala que viaja para outros lugares quando precisa acalmar o vício, reconhecendo a necessidade de brecar o uso, mas não de largá-lo.

Eu nunca ouvi uma música que demonstrasse tanto o impacto e reflexão de um artista sobre o vício de drogas. Não sou moralista, mas estamos acostumados com o contrário disso, a exaltação do uso.

Gustavo teve coragem de bater de frente consigo e nos trazer isso da forma mais crua e lúcida. Teve coragem de conversar com seus demônios e escrever sobre todos eles.

Gustavo de Nikiti comemora. Está vivo, está criando, mesmo que em meio a Babilônia, seja a do mundo afora, seja a interna.

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Dennis Cunha

PAULISTANO, ESTUDANTE DE DIREITO, AMANTE DA CULTURA HIP-HOP E METIDO A ESCRITOR.

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Menos uma voz nas sombras

Menos uma voz nas sombras
À Poitier, Com Carinho
Menos uma voz nas sombras
À Poitier, Com Carinho

13 de abril de 1964.

Até aquele dia nenhum ator negro havia ganhado um Oscar. E então Sidney Poitier é premiado pelo filme “Uma Voz nas Sombras”.

Poitier é colocado em diversos locais como “o homem que desafiou o racismo” ou coisas parecidas. É interessante ver os detalhes do que veem nele como alguém que afrontou as pessoas.

Um de seus atos polêmicos à época foi beijar no rosto a apresentadora que lhe entregou o prêmio de Melhor Ator…

Em seu discurso, Poitier diz uma frase simples, mas forte: “Foi uma longa jornada até este momento.”

É importante ressaltar que o Oscar foi criado em 1927. Estamos falando de 37 anos sem nenhum ator negro ganhar um Oscar, uma longuíssima jornada.

Mas trazendo um ar com um pouco de Milton Neves e seu quadro clássico “Que Fim Levou?”, onde se chegou após essa longa jornada?

Poitier protagonizou grandes filmes, como “No Calor da Noite” e “Adivinhe Quem Vem para o Jantar”. No Brasil, somente um teve mais destaque, o filme “Ao Mestre, Com Carinho” se tornando um grande clássico e tornando o ator conhecido nas terras brasileiras.

A filmografia é, em grande parte, baseada na temática do racismo. Nas tramas, Poitier é vítima de racismo pela namorada, sogros, alunos, vizinhos ou qualquer outra pessoa.

O talento de Poitier e sua resiliência traziam algo novo a cada filme, mesmo com a infeliz pouca criatividade que os diretores e roteiristas tinham em seus histórias. Sidney Poitier com seu olhar firme marcou a história do cinema e da sociedade.

E ao cinema, que fim levou o impacto de Poitier? De 1964 vamos viajar para 2002, 38 anos depois. Somente em 2002, ano em que Sidney Poitier se aposenta e é homenageado pelo Oscar, um segundo ator negro ganha um Oscar de Melhor Ator, Denzel Washington, pelo filme “Dia de Treinamento”.

Uma longa jornada.

Mesmo com a falta de reconhecimento no passado e atualmente, o movimento #OscarSoWhite comprova a necessidade latente de reconhecimento, o marco de Poitier é gigante, e mais do que contar a história desse grande ator e da péssima relação do Oscar com os negros, o convite especial que fica é ir atrás de um filme desse ator gigante que antes como uma voz nas sombras, se tornou uma voz sob o holofote e que puxou para que mais negros pudessem sair das sombras.

Viva, Sidney Poitier!

*Sidney Poitier está atualmente com 92 anos e vive Cat Island, nas Bahamas.

Imagem: Sidney Poitier, Site Biography

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Gustavo Nogueira

estudante de jornalismo, formado em cinema na lafilm institute, autor do livro "quadro a quadro". além do êxodo, é colaborador do universo hq.

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Estranhos Frutos

Estranhos Frutos...
A violência é ingrediente cotidiano na vida dos de baixo. Desde quando seus corpos negros eram pendurados nos álamos do sul dos EUA.*
Estranhos Frutos
A violência é ingrediente cotidiano na vida dos de baixo. Desde quando seus corpos negros eram pendurados nos álamos do sul dos EUA.*

A dominação do homem pelo homem plantou na sociedade uma frondosa árvore de brutalidade. Violação que tem classe, gênero e raça. Todas elas integrantes de um corpo que alimenta um sistema que descarrega ódio disfarçado de liberdade, desigualdade disfarçada de diferença, e espíritos de velhos fantasmas. No Brasil edificado pela barbárie escravista, se conhece de perto a violência.

Cotidiana e flagrante, este ingrediente não encontra na vida diária dos jovens e trabalhadores, meios para transformar o ódio a nós escarrado todo dia, em energia para transformar o mundo em que vivemos. Sofremos nós, homens e mulheres negras, silenciados por 519 anos. Nosso martírio no entanto, quando resistimos, nossa fúria jamais teve um fim em si mesmo, muito menos expressão espelhada da agressão que nos trouxe de África até aqui. A instituição racista que nos desumaniza todos os dias, pelo contrário, é o que sempre moveu nossa resistência em última instância, do Araguaia a Canudos.

Vivemos na era dos novos monstros que impedem o velho mundo de cair. A supremacia da violência, instrumento mais bem acabado da sociedade atual, rompeu a fronteira do mundo físico. Os monstros nascem de hospedeiros virtuais, onde a violência do mundo fabrica ideias distorcidas, fora do lugar. De uma sala de chat virtual da darknet [1] podem nascer soldados com ou sem causa.

O primeiro tipo, resignado, consome opiniões fabricadas para os smartphones, de think tanks ou de gurus do YouTube. Para este, em um mundo atravessado pela normatização repressiva, que mata e manda matar todos os dias, falta ordem. Os desvios morais produzem promiscuidade e degeneração. Mas afinal quando vivemos neste mundo repleto de Ordem e Progresso que proclamam? O imaginário destes indivíduos consome fábulas de um país pacífico e hospitaleiro. Pois certamente não foi este país que fez cair os Malês [2], ou enviou uma judia grávida a ser abatida nos campos de concentração de Hitler [3].

No país da candelária [4] e do carandiru [5], não existe racismo, existe degeneração, mau caráter e vitimismo. O tão afamado vitimismo que pariu do ventre adoecido da ‘pátria amada’ um outro tipo de monstro. Nasce o soldado com causa, aquele que encontra em grupos de ódio, plateia para socializar suas frustrações. Afinal no capitalismo apenas a barbárie é socializada.

Nos porões destas salas virtuais brotam frutos podres, vindos da mesma árvore decrépita que fundou o mundo de opressão em que vivemos. Como dissemos, este fruto ainda que estragado, faz seu fedor chamar atenção. Tem audiência, público sedento que aprende com espanto que foi traído, enganado e brutalizado pelo ‘feminismo’, pelos ‘comunistas’ e pelos ‘negros’ ingratos, cismados e rebeldes.

E desta sala saem os rebeldes com causa, nome, classe e endereço. Os bravos guerreiros da frustração. Estes que dispararam sobre crianças suas ideias fora do lugar, instrumentalizadas por armas de fogo, em Columbine e em Suzano. Estes indivíduos ganharam a atenção que tanto queriam, se tornando mártires de causas deformadas, vazias e tão inférteis quanto o termo que usam para designar a si mesmos (Involuntary Cellibates [5]).

Sua frustração [6] não está  na estrutura patriarcal e sexista  que nos educa desde o berço. Está na humilhação de nunca ter se relacionado com alguma mulher, seu alvo favorito nos chans [7] e na decadente vida social que levam. A misoginia e o racismo se tornam reação, o martírio que investe contra seus “opressores” é o supremo ato de coragem glorificado nos umbrais da internet. As razões de suas dores, são vistas com sensibilidade pela mídia e pela opinião chocada com seus atentados. A eles se prestam todos os cuidados, afinal, isoladamente o mal-estar da vida escolar é o que angustia a alma dos pobres diabos. As ideias fora do lugar, que edificaram em seus espíritos o conteúdo de seus atos não são debatidos. Os criadouros de ódio aos direitos humanos e à minorias étnicas e sociais é de onde vêm esses rebeldes sem causa. O bullying é aspecto secundário deste fenômeno; mas não importa, porque toda atenção a estes problemas é dada, quando a vítima não é escandalosa como uma mulher, ingrata como um pobre, vitimista como uma travesti ou dissimulado como um negro. A realidade é coberta com um véu, e a máquina de fazer vilões continua intocada.

Desta forma, a comoção tem cor, classe, endereço e gênero. E é escolhida a dedo. De Caracas à Moçambique ou pela Favela do Cimento, flagrante é a tragédia quando ela é branca. Negra solidão… A violência branca é acidente, desvio, trauma, fruta podre para o descarte junto à promessa de que ela não afetará as demais. Sobre nós, a violência é exceção, vitimismo, sujeitas às mais torpes indagações. Nossa reação é revolta, exagero, crime e castigo.

Não se espanta com a miséria e a sujeição dos oprimidos, do contrário, ela é compartilhada e tem audiência. Não à toa um vídeo contando “a verdade sobre 1964”, veiculado por um canal de defensores da moral e dos bons costumes está entre os mais assistidos do YouTube durante estas semanas. Revisar e normatizar a dominação é agora o instrumento dos poderosos, de Suzano aos Comandos Militares no Rio de Janeiro.

80 tiros [8], 111 presos [9], 19 sem-terra [10], 868 transsexuais ou travestis [11], 71 negros por ano [12], 6 mulheres a cada hora [13]. São os nossos que caem na sombra da raiz da mesma árvore que plantou pelos poderosos sobre nós, a insígnia da violência. Nos resta estar vivo para transformar a agressão em coragem, e arrancar desta árvore os frutos e as sementes da opressão. Para que um dia nos reconheçamos como donos deste mundo, construamos nele outro horizonte e sejamos livres do início ao fim.

Notas:

*Nos EUA, durante o auge do apartheid estadunidense, era comum nos estados do Sul ver corpos negros enforcados pela Ku Kux Klan pendurados nas árvores. Esta prática perdura até hoje no país, e inspirou canções como Strange Fruit de Nina Simone

[1] Darknet é a parte oculta da internet convencional, onde além de encontrar segredos de Estado, artigos e livros científicos é possível fazer parte de grupos de extrema-direita que fomentam o fundamentalismo religioso e o armamentismo.

[2] A Revolta dos Malês foi uma insurreição de escravos vindos do Mali no nordeste do Brasil, duramente reprimida pelo Império.

[3] Olga Benário, militante comunista alemã e companheira de Luís Carlos Prestes, foi presa pela ditadura Varguista e deportada para a Alemanha Nazista, mesmo estando grávida e sendo judia.

[4]  O massacre da igreja da Candelária promovido por grupos de extermínio, matou 19 jovens no Rio de Janeiro

[5] Involuntary Cellibates (Celibatários Involuntário, ou INCEL), são como se denominam os membros de grupos de redes sociais como a Reddit. Os INCEL se reúnem em chats virtuais para compartilhar suas frustrações com a vida social, e destilar ódio às mulheres e à minorias étnicas ou sociais

[6]https://www.vice.com/pt_br/article/zm8v3e/incel-massacre-realengo-dogolachan-homini-sanctus-marcello-valle-silveira-mello

[7] Chans são salas de chat virtuais onde se reúnem os INCEL. Estas salas produzem conteúdo misógino e odioso em seus tópicos, e alimentam em outras redes sociais como o Facebook seus ataques.

[8] No dia 8 de abril de 2019, uma família foi fuzilada por membros das forças armadas enquanto voltava pra casa, no Rio de Janeiro.

[9] O Massacre do Carandiru foi uma iniciativa do governo de São Paulo que chacinou 111 presos, sob a alegação de estarem envolvidos com rebeliões. Com tiros nas costas e execuções sumárias, as vítimas foram executadas sem que os responsáveis tenham sido punidos até hoje.

[10] O massacre de Eldorado dos Carajás foi uma empreitada de milícias rurais armadas contra militantes do Movimento dos Sem-Terra (MST)

[11]  O Brasil é o país que mais mata a população transsexual ou travesti no mundo

[12] 70% das mortes causadas por intervenção policial vitimam a população negra

[13] O Brasil possui um dos maiores índices de violência doméstica do mundo.

Referências:

https://www.vice.com/pt_br/article/wj3qay/e-a-frustracao-masculina-que-decide-os-rumos-politicos-do-brasil-hoje

https://www.vice.com/pt_br/article/zmgyg3/extrema-direita-livro-jovens

https://www.vice.com/pt_br/article/7xqw3g/como-e-a-vida-de-um-incel

https://www.vice.com/pt_br/article/zm8v3e/incel-massacre-realengo-dogolachan-homini-sanctus-marcello-valle-silveira-mello

https://www.vice.com/pt_br/article/7xnjmg/ministerio-publico-vai-apurar-envolvimento-de-chan-no-massacre-em-suzano

https://www.vice.com/pt_br/article/xwm8ya/pf-prende-notorio-troll-racista-misogino-e-homofobico-das-redes-brasileiras?utm_source=stylizedembed_vice.com&utm_campaign=zm8v3e&site=vice

https://www.vice.com/pt_br/article/gyj3yw/como-o-reddit-esta-ensinando-homens-jovens-a-odiar-mulheres?utm_source=stylizedembed_vice.com&utm_campaign=zm8v3e&site=vice

Imagem: Foto de Dorothy Counts, primeira aluna negra da Universidade de Harry Harding e enfrentou o racismo diariamente

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Bruno Santana

Estudante de arquitetura e urbanismo, pesquisador e membro do coletivo de faculdades de arquitetura entre:FAUs

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Vamos ficar bem

Vamos ficar bem?
Vamos ficar bem?

Eu adoro o programa Espelho do Lázaro Ramos, e vou citar uma entrevista aqui, que talvez eu use em outros textos. Em 2014, o Lázaro entrevistou o rapper Criolo e foi fantástico, perdi as contas do quanto já assisti a essa entrevista.

Lembro que até virou meme o desabafo do rapper sobre a “ascensão da classe C”, por gente que não entendeu o que ele quis dizer.

Uma das frases que me marcaram na entrevista foi dita perto do fim do programa, em que o artista volta a falar sobre a classe C. Em dado momento, o Criolo diz:

“A mão que segura o chicote, ela não é invisível. E ela só vai dando tempo pra gente, pra ver como que a gente se relaciona com essa frigideira quente. Na hora em que eles falarem “calem a boca desses meninos”, eles vão calar nossa boca”.

E o que quero dizer com isso?

Ano pesado, né? Acho que consigo lembrar mais das más notícias de 2019 do que das boas, e olha que meu time se classificou para a final do Estadual depois de 16 anos.

Cá pra nós, sei que to escrevendo pouco aqui no Êxodo, mas tenho me estressado muito fora dele.

Gente, alguém viu a notícia que o exército disparou 80 tiros no carro de uma família que estava indo para um chá de bebê? Cês viram o relato da esposa da vítima falando que os soldados debocharam dela?

Cês viram algum pronunciamento do Ministro da Justiça ou do Presidente da República sobre isso, ou Golden Shower é mais escandaloso do que o genocídio negro no Brasil? Atualizem-me sobre o assunto, por favor. Talvez eu seja o ultrapassado.

Também, há algumas semanas, o DJ Rennan da Penha, idealizador do Baile da Gaiola, famoso nas favelas do Rio de Janeiro, foi preso por associação ao tráfico de drogas. Não é novidade a criminalização do funk e dos bailes, exceto se for consumido por determinado público, fora das favelas. Não é novidade que eles vão calar a boca de um jovem negro favelado, quando isso for necessário.

E então, voltando ao domingo, dia do assassinato, teve um ato de um grupo de esquerda em protesto contra a prisão do ex-presidente Lula. Deitaram no chão, formando a frase “LULA LIVRE”, segurando e rodando guarda-chuvas coloridos, simbolizando tudo, menos o que precisamos da esquerda no momento.

No domingo também o Kendrick Lamar tocou em São Paulo, no Lollapalooza.

O meu sonho é assistir a um show do Kendrick Lamar, mas talvez a elite brasileira consiga sonhar mais alto, considerando a maioria do público do festival. Talvez a elite brasileira tenha uma sensibilidade com racismo, injustiça-social que a gente não tem, e aí tenha ficado mais fácil de apreciar o show.

Já ouviram “Alright” (Tudo Bem) do Kendrick Lamar? É uma carta aberta para a comunidade negra, não só americana, não só fã de rap. É uma carta falando que vamos ficar bem, independente do que está acontecendo. Das notícias ruins que a gente consegue lembrar e/ou sentir com mais facilidade. Da forma em que o Estado nos mata todos os dias. Da falsa liberdade, também falada pelo Criolo.

O refrão repete várias vezes a frase “Nigga, we gon’ be alright” (Mano, nós vamos ficar bem).

O fato é que o Kendrick cresceu em Compton, um berço de rappers, mas marcada também pela violência.

Lamar cresceu em meio a essa violência e lembrou-se de fazer uma música pra que ajude uma população oprimida e desiludida pelas tragédias do cotidiano.

Repetimos todos os dias que vai ficar tudo bem, e o Kendrick, considerado um dos melhores rappers de todos os tempos, também repete. Não sei, prefiro não discordar, espero que a gente fique.

Imagem: Clipe “Alright” de Kendrick Lamar

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Dennis Cunha

PAULISTANO, ESTUDANTE DE DIREITO, AMANTE DA CULTURA HIP-HOP E METIDO A ESCRITOR.

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Lacrei

Lacrei
Lacrei

Eis que sigo falando sobre o papel do Êxodo…

Já ouvi algumas vezes questionamentos se o Êxodo seria um canal de “lacração”. Resposta simples: não. E agora vai a resposta longa ou, se falamos de lacre, o textão.

O termo lacre na forma como é falada hoje significa alguém que dá uma grande resposta, finaliza com uma grande voadora, com direito a óculos escuros, gritos e tudo mais.

O slogan do podcast Mamilos, de Ju Wallauer e Cris Bartis, ainda me inveja e me inspira: “O podcast que não busca provar pontos, mas criar pontes”. Essa visão simplifica e muito a ideia que busco retratar aqui.

E por mais claro que esteja, é necessário prolongar mais um pouco a questão.

Nos últimos dias vi o conflito do “fogo amigo” que está ocorrendo na política brasileira noticiada pelo The Intercept Brasil. Não vou me apegar a notícia em si, até porque o objetivo não é me posicionar politicamente neste caso, mas nas formas que criamos muros entre nós.

As falhas na caminhada seja política ou social, com cada um tropeçando nos outros, ou até pisando nos outros, é um sinal triste e um sinal que não há mais comunicação. No caso citado, a falta de diálogo faz com que não percebamos que estamos no mesmo lado da moeda.

“Mas Gustavo o que isso tem a ver com lacrar?”

Diante de tanta dor e dificuldade com o diálogo com o outro, entramos para o lacre, e matamos o diálogo, o debate e a reflexão. Conversas edificantes e reflexivas que poderiam mudar o mundo, ou ao menos uma pessoa, nem ao menos iniciam porque “lacramos”.

Eu sei cansa, mas aonde chegamos “batendo palma para maluco dançar”?

Há diversas funções do Êxodo citadas nos meus últimos textos e que serão cada vez melhores esclarecidas nos próximos conteúdos de todos os membros, mas, mais do que tudo, Êxodo é a porta do debate, é a saída da cabeça fechada para mentes unidas pensando num mundo melhor.

Conteúdo sem “lacração”, mas com diálogo.

Lacrei.

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Gustavo Nogueira

estudante de jornalismo, formado em cinema na lafilm institute, autor do livro "quadro a quadro". além do êxodo, é colaborador do universo hq.

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Minta para mim

Minta para mim
Minta para mim

Não havia me lembrado que o dia de hoje seria 1° de Abril sendo que na última semana falei sobre a verdade. Mas como o dia de hoje é o dia da mentira, falemos sobre a mentira.

Me recordo de uma série que gostava muito, a série Lie to Me (Minta para mim). No Brasil, foi lançada com o nome “Engane-me se puder”, não gosto muito desse título, em breve irei explicar o porquê. Na série acompanhamos o Dr. Cal Lightman (Tim Roth), especialista em linguagem corporal, que investiga casos criminosos, detectando os mentirosos.

As investigações de Lightman e sua equipe animavam minhas tardes, infelizmente a série foi cancelada há anos, mas desvendar as mentiras me instigava e me instiga até hoje, talvez isso tenha me levado ao jornalismo.

Em relação à minha crítica ao título, a versão brasileira cria um desafio ao mentiroso, mas a verdade é que ele vai enganar em algum momento, ou eu, ou outros. Agora a tradução literal muda o foco do mentiroso, não minta para os outros, minta para mim.

No dia de ontem foi marcado por quererem mentir para outros, mas para nós, não. Celebrações onde deve existir luto sempre fica claro. Não mentiram para nós, mas já mentiram. Estamos calejados.

A função do texto sobre a verdade, explicar um pouco do papel do Êxodo, também se aplica neste. O Êxodo quer esclarecer as mentiras, conteúdos que podem ser percebidos em diversos conteúdos como os excelentes textos Quando éramos Reis e O Negro na Cidade Brasileira.

Se o objetivo é esclarecer por que pedir que se minta mais? Qual é a mentira que te afeta, a que te diz que você tem uma herança maldita? A que diz que por sua cor, sua classe ou seu sexo que seu lugar não é ali? As mentiras são muitas. E nem todos ouvimos, a maior mentira que contamos a nós mesmo é que muitas delas não existem, mantemos o status quo.

E seguem as mentiras…

Como já dito, estamos calejados, mas não acabados.

Devem vir mais mentiras, mas devemos abrir os ouvidos para a mentira e a boca para espalhar a verdade.

Imagem: Pinoquio por Winshluss

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Gustavo Nogueira

estudante de jornalismo, formado em cinema na lafilm institute, autor do livro "quadro a quadro". além do êxodo, é colaborador do universo hq.

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Amar (Odiar) é para os fortes

Amar (Odiar) é para os fortes
Amar (Odiar) é para os fortes

Em setembro de 2018, Marcelo D2 lançou “AMAR é para os FORTES” seu novo álbum-visual, do formato ainda pouco usado no Brasil, é um dos mais diferentes que já ouvi, com um diálogo de um filme no começo ou fim de cada música.

O álbum passeia pelo subúrbio do Rio de Janeiro, contando uma história que se divide entre a violência da realidade nas favelas cariocas e a aspiração para fugir disso tudo por meio da arte. O personagem do álbum, Sinistro, atuado pelo Sain, filho do D2, carrega conflitos a cada faixa do álbum, destaco as faixas “FEBRE DO RATO}” e “DEPOIS DA TEMPESTADE}”,  elas trazem sentido a ambiguidade do título e do álbum em si.

Mas o D2 não fez barulho só dessa forma no ano passado, como também foi um dos artistas que mais bateu e apanhou da extrema-direita ao fazer críticas do atual presidente. Eu o acompanhei pelo Twitter durante o ano inteiro e a maneira em que ele lidou com tudo isso o fez ganhar mais um fã.

Assisti a uma entrevista do Marcelo concedida para a Vice, e uma das respostas que mais me chamou atenção foi a que ele deu ao escolher sobre o seu filme favorito La Haine (O Ódio). De imediato já fui pesquisar para baixar.

“La Haine” mostra um dia extremamente conturbado de três jovens amigos franceses. Saïd é árabe, Hubert é negro e Vinz é judeu. Eles estão agitados, pois na noite anterior houve um conflito contra a polícia em uma manifestação e um dos manifestantes foi para o hospital após ser espancado por policiais. O filme passa a maior parte do tempo no bairro periférico e pobre, onde os jovens deixam claro o descontentamento com a situação desigual em que vivem. Mas também, o filme fala sobre repressão policial e racismo.

Fazendo uma comparação com os dias atuais, vale lembrar-se da manifestação mais famosa da mesma França do filme, liderada pelos Coletes Amarelos, que começaram protestando contra o aumento do preço do combustível e agora já avançou para o custo de vida em si. O protesto já contabiliza o número de 10 manifestantes mortos.

Um fato interessante é a crítica que o atual presidente Jair Bolsonaro fez a França dizendo que é “insuportável viver na França” por causa da sua política de aceitação com imigrantes. O mesmo foi respondido de uma forma bem irônica por um diplomata francês comparando o número de homicídios entre os países.

É triste que O Ódio continue sendo um filme completamente contemporâneo, mesmo tendo sido lançado em 1995. Vemos os conflitos políticos, a polarização e o ódio sendo uma crescente em todos os âmbitos.

Um verso da música FEBRE DO RATO} resume bem o quero dizer:

“Sou barril de pólvora, pavio acesso

Final traçado desde o começo

Meus amigos já se foram

Eu aqui sozinho engolindo meu choro

Ouço um tiro e a dor me persegue

Eu corro pra longe, antes que o ódio me cegue,

Antes que o ódio me cegue

Eu corro pra longe, antes que a morte me pegue”

*Estarei presente representando o Êxodo no show da turnê do álbum na

próxima sexta-feira (dia 29/03) na Audio Eventos, na Av. Francisco Matarazzo, 694, em São Paulo.

FOTO: BENOIT TISSIER/REUTERS – 24.11.2018

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Dennis Cunha

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Lembrai de Carolina

Lembrai de Carolina
Lembrai de Carolina

Lembra quem foi homenageada por seus 105 anos, com homenagem até pelo Google? E quem teve sua história adaptada para os quadrinhos e premiada internacionalmente? É bem provável que você não se lembre, mas para as duas perguntas a resposta é: Carolina de Jesus.

A escritora do livro “Quarto de Despejo” faria 105 anos no último dia 14 de março e foi lembrada por alguns veículos e portais de relevância.

Mas já foi esquecida novamente.

Em celebração a Carolina de Jesus, o Êxodo entrevistou João Pinheiro, autor da HQ “Carolina” em dupla com Sirlene Barbosa, obra premiada no Festival de Angoulême, um dos principais festivais de quadrinhos do mundo! Na conversa, falamos sobre a memória e a importância de Carolina.

Esse ano marca o aniversário de 105 anos de Carolina de Jesus. Vocês viram esse momento de forma diferente após terem feito a obra “Carolina”?

A ideia de fazer a HQ surgiu em 2013 por sabermos que em 2014 seria seu centenário. Naquele ano, ocorreram muitos eventos em comemoração à efeméride e desde então Carolina tem se tornado cada vez mais conhecida, isso é o que podemos constatar.

Vocês acreditam que há hoje um novo olhar para a vida e obra de Carolina de Jesus na sociedade?

Sim, sentimos que ela está sendo redescoberta por mais pessoas, principalmente pelos mais jovens – o que é um ótimo sinal. Mas ainda achamos que é preciso trabalhar por mais reconhecimento e exposição para a obra dessa fundamental escritora brasileira.

O aniversário de Carolina de Jesus possuiu homenagem até no Google. Como vocês veem que isso pode ter impactado as pessoas?

A nosso ver, a “femenagem”, como a Sirlene faz questão de dizer, é um resultado direto da luta geral dos negros na sociedade brasileira, em especial das mulheres negras, por maior espaço em todos os campos de atuação, inclusive na literatura, portanto essa é uma vitória desse movimento de resistência. Por outro lado, Carolina nunca foi esquecida dentro da cultura periférica e negra e segue influenciando novas gerações em saraus, rinhas de MC’s, Slams e escolas das quebradas. Escritores como o Ferréz, por exemplo, sempre pagam tributo a Carolina como uma precursora da literatura periférica e marginal; Escritoras contemporâneos importantes como a Débora Garcia e o Sacolinha tem a obra Caroliniana entre suas maiores referências.

Falando sobre a HQ “Carolina”, como vocês receberam a notícia do prêmio em Angoulême?

Com entusiasmo é claro e surpresa.

Há outras escritoras que vocês gostariam de adaptar para os quadrinhos ou que gostariam que fossem adaptadas e/ou homenageadas como Carolina de Jesus?

Sim, muitas histórias precisam ser contadas a respeito dos negros e negras do nosso país. Isso ainda nem começou a ser explorado.

Para finalizar, após mais de dois anos do lançamento da HQ, no Brasil atual, vocês veem que a importância de Carolina, tanto a HQ quanto a escritora mudaram?  

Carolina e sua obra sempre serão atuais e importantes enquanto a estrutura escravocrata da nossa sociedade não for alterada. No Brasil atual corremos o risco de que forças antagônicas tentem apagar novamente Carolina da vida cultural brasileira, mas felizmente há bastante resistência também. Carolina vive!

Imagem: Trecho da HQ Carolina, de Sirlene Barbosa e João Pinheiro; Editora Veneta.

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Gustavo Nogueira

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Heroes

Heroes
Heroes

Há alguns dias ouvi de um colega: “Boa sorte para vocês do jornalismo, não deve estar fácil para vocês”. Não é fácil fazer jornalismo, e nesse texto quero trazer aquilo que me traz esperança: o jornalismo.

A ideia não é atacar (ou contra-atacar) a quem possua uma visão simplista ou crítica ao jornalismo, mas sim abrir um diálogo sobre o que é o jornalismo e, até mesmo, o papel do Êxodo como veículo de jornalismo.

O dicionário Priberam define jornalista como: “Pessoa que tem por profissão trabalhar no domínio da informação, num órgão de informação social numa publicação periódica escrita ou na televisão, na rádio, na Internet”. Infelizmente não encontrei uma definição interessante para jornalismo, mas a definição de jornalista  traz termos interessantes.

“Domínio da informação”. A filosofia de Thomas Hobbes já colocou que “conhecimento é poder”, em uma mera troca de sinônimos e ligação das frases, podemos chegar que o jornalista domina o poder, ou uma espécie de poder. Talvez seja por isso que o jornalismo ameace aos “poderosos”. Não quero me ater a política e peço que não se limite seus pensamentos a líderes que não merecem ser citados.

Uma declaração de Timothy Snyder, professor e historiador da Universidade Yale, animou e esclareceu as ideias sobre o jornalismo nestes tempos turbulentos: “Não há substituto para o jornalismo.(…) Assim como a saúde, a verdade é importante, sem a qual não podemos funcionar na esfera pública em uma sociedade democrática.”.

Na democracia, há a dádiva da dúvida e que ficou em meus ouvidos ao ouvir a ótima música do rapper Kivitz em seu último lançamento, a música “Jornais”. No refrão ele recita:

Ô, FILHO DA CULTURA, EU SOU FILHO DA ESSÊNCIA

VEM ME JULGAR POR IMPERÍCIA

ISSO JAMAIS!

MELHOR ME ENQUADRAR POR IMPRUDÊNCIA…

POR NÃO ACREDITAR NOS SEUS JORNAIS

O rapper busca a verdade e por isso se disponibiliza a ser enquadrado como imprudente se for necessário, pois a busca da verdade, ou da essência como colocado na música, é superior aos jornais.

Sendo assim, a informação sem máculas, real e palpável, que é a simples verdade é a base para o bom jornalismo e é a busca do Êxodo, caso não queira nos meus ou nos seus jornais, ok, mas busque a verdade, pois, citando novamente Snyder, “as pessoas que estão tentando buscar a verdade são heróis.”

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Gustavo Nogueira

estudante de jornalismo, formado em cinema na lafilm institute, autor do livro "quadro a quadro". além do êxodo, é colaborador do universo hq.

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Antes de tudo, ele é um Chapa

Antes de tudo, ele é um Chapa
Antes de tudo, ele é um Chapa

Trampo em um escritório de advocacia e uma das funções que já tive aqui foi a de Office boy. Basicamente, todos os dias eu tinha que ir para diversos fóruns protocolar processos. Em São Paulo, um dos fóruns que fui diariamente é o Fórum João Mendes, que fica próximo a estação de metrô da Sé, no centro de SP.

Desde essa época eu já ficava o dia todo trabalhando com fones no ouvido, cansei de ouvir repetidamente álbuns dos meus rappers favoritos, ainda mais em época de lançamento.

Houve uma época em que saiu uma polêmica notícia a respeito da gestão do ex-prefeito de São Paulo e atual governador, João Dória, devido a uma ação de limpeza que era feita diariamente e que atingiu pessoas em situação de rua. Essa ação foi justamente na praça da Sé. Depois desse dia, comecei a refletir mais sobre o assunto e um rap me ajudou, novamente.

Ouço Emicida todos os dias, e considero a música “Chapa” uma das mais tristes do mc. A música fala sobre o sentimento de saudade causado por uma pessoa que sumiu e ninguém consegue obter notícias, o clipe é uma homenagem às Mães de Maio, um movimento fundado por mulheres mães de vítimas mortas pela PM e a introdução é de uma mãe descrevendo filhos que estão sumidos em São Paulo.

O primeiro verso manifesta a dor da saudade:

“Chapa, desde que cê sumiu

Todo dia alguém pergunta de você:

Onde ele foi? Mudou? Morreu? Casou?

Tá preso, se internou, é memo? Por quê?”

E a pergunta que me veio em mente na época que li a notícia, ouvindo Emicida e indo todos os dias na Sé, foi: “Será que aqui estão possíveis Chapas?”

E a resposta é sim.

Encontrei no Facebook uma página chamada “SP Invisível” e fiquei emocionado com tudo o que vi lá. A página é um projeto formado por voluntários que conversam com pessoas em situação de rua e descobrem a história que cada uma delas carrega, procurando assim, humanizar pessoas que tornaram-se invisíveis para a sociedade.

Pessoas que chegaram ao limite da vida e vivem nesse limite os dias. Pessoas que não conseguiram voltar pra casa, dar notícias para famílias e personificaram a música “Chapa” do Emicida.

Uma das postagens causou tanta comoção que leitores se organizaram para pagar uma passagem de volta pra casa pra uma dessas pessoas.

Um Chapa a menos.

Até agosto de 2018, o Brasil registrou mais de 80.000 pessoas desaparecidas.

Visite a página do SP Invisível aqui:

https://spinvisivel.org/

Imagem: Praça da Sé / Veja SP

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Dennis Cunha

PAULISTANO, ESTUDANTE DE DIREITO, AMANTE DA CULTURA HIP-HOP E METIDO A ESCRITOR.

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