D’Salete, Marcelo D’Salete

D'Salete, Marcelo D'Salete
D'Salete, Marcelo D'Salete

Caminhando para o final do ano, no último texto trouxe uma análise de uma grandíssima obra lançada esse ano no Brasil, mas para falar sobre quadrinhos importantes desse ano é imprescindível falar sobre Marcelo D’Salete.

Ao decidir falar sobre os fatos e lançamentos importantes do ano, pensava em falar sobre D’Salete mais ao final, para “fechar com chave de ouro”, mas o ouro era tanto que não era possível deixar para o final. D’Salete não é a chave de ouro, é toda a porta para um novo quadrinho e cultura nacional.

Acho muito difícil que você, caro leitor, não saiba quem é o quadrinista Marcelo D’Salete, mas caso ainda não saiba nada, recomendo a curtíssima biografia que fizemos em nosso Instagram. O artista de São Mateus, bairro da periferia da Zona Leste de São Paulo, invadiu todas as mídias a cada nova conquista e, após ganhar o prêmio Eisner pela obra Angola Janga, não havia mais como não falar sobre D’Salete.

O autor possui uma carreira baseada em narrativas sobre a resistência à escravidão e a luta diária contra o racismo. Sim, suas HQs, em grande parte, tratam sobre a luta durante o período escravocrata, mas a maestria do quadrinista traçam o paralelo entre a realidade daquele período atual, mostrando que o conflito não acabou e que a luta continua.

O Eisner é um dos prêmios dos quadrinhos mais importantes do mundo, possuindo respeito mundial. Em 2018, a HQ Cumbe foi premiada como melhor edição americana de material estrangeiro. Não é a primeira vez que um brasileiro ganha um Eisner, mas o gosto de ver D’Salete ganhar esse prêmio é diferente.

A consagração de Marcelo D’Salete representou um marco e uma força para um reavivamento do quadrinho nacional e da importância de falar da história negra. Além do Eisner, o quadrinista foi premiado com o Prêmio Grampo, HQ Mix e o Jabuti, e muitos mais prêmios devem surgir no próximo ano. O jornalista Thiago Borges definiu de forma brilhante o ano do quadrinista como o seu Grand Slam.

O impacto de ver D’Salete neste momento é acreditarmos que é possível contar uma história importante sobre aquilo que muito é esquecido e acreditar que a cultura brasileira pode e será reconhecida.

D’Salete deve ser o nome mais repetido desse ano, para lembrar que 2018 foi o ano do afro no quadrinho brasileiro.

Últimas matérias

Gustavo Nogueira

estudante de jornalismo, formado em cinema na lafilm institute, autor do livro "quadro a quadro". além do êxodo, é colaborador do universo hq.

ENVIE A SUA MENSAGEM

ENVIE A SUA MENSAGEM

A Caminhada Mais Importante da História

A caminhada mais importante da história
A caminhada mais importante da história

Há momentos da história que são esquecidos ou ignorados. Momentos que muitas vezes são partes fundamentais para entendermos a atual realidade tanto do país quanto do mundo. Em A Marcha presenciamos a luta contra a segregação racial nos Estados Unidos através da trajetória de John Lewis.

Escrita por Lewis e Andrew Ayden, a trama é contada de forma não linear, através do artifício de Lewis narrar sua história para outros personagens, como para crianças que vão visitar seu escritório. Alternativa inteligente, pois o leitor já busca um paralelo com as consequências na atualidade dos atos de Lewis.

A narrativa é concisa e produz uma boa construção para a história de Lewis, pontuando fatos de sua infância, adolescência e vida adulta. Tudo é conectado, trazendo relevância a fatos que poderiam ser tratados como pueris, como sua vida na fazenda e as consequências em sua vida como pregador e líder.

O ponto alto da HQ é, sem dúvida, seu início na luta contra a segregação racial. A trama surpreende ao não focar em Martin Luther King, o colocando como alguém de suma importância e respeito do protagonista da história, mas traz luz aos homens e mulheres que estiveram na luta para a liberdade dos negros.

A arte de Nate Powell é feita totalmente em preto e branco, e consegue trazer a emoção necessária para a história cercada de tanta tensão. Há momentos em que se destaca em criatividade, mas em maior parte ela segue o padrão comum das histórias em quadrinhos.  

A Marcha – Livro 1 será fechado em três livros, e é reconhecida por ser a primeira série de quadrinhos a vencer o National Book Award, um dos principais prêmios de literatura dos Estados Unidos. Por ser uma trilogia, este primeiro volume fica com a falta de uma boa conclusão, o que diminui o nível de qualidade da trama.

John Lewis possui uma importância gigantesca em todo processo de direitos civis do negros, e neste livro vemos apenas o começo. Ainda assim, o presidente Donald Trump falou há alguns meses em seu Twitter que Lewis “fala, fala e não faz nada”. Parece que todos temos que ler A Marcha.

Últimas matérias

GUSTAVO NOGUEIRA

estudante de jornalismo, formado em cinema na lafilm institute, autor do livro "quadro a quadro". além do êxodo, é colaborador do universo hq.

ENVIE A SUA MENSAGEM

ENVIE A SUA MENSAGEM

Banzo e a dor que herdamos

Banzo e a dor que herdamos
Banzo e a dor que herdamos

No 8º episódio da 2ª temporada da série Dear White People (Netflix), a personagem Joelle (Ashley Blaine Featherson) fala sobre a interessante descoberta de um grupo de pesquisadores de um hospital de Nova York. No momento despertou a minha curiosidade, mas eu precisava terminar logo a temporada (que por sinal, achei fraca em comparação à primeira). Posteriormente, pensando em pautas para o site, lembrei-me do episódio e resolvi explorar o assunto.

Basicamente, o grupo de pesquisadores nova-iorquinos reuniram 32 homens e mulheres que foram presos em um campo de concentração nazista. As vítimas, além de presenciar os horrores da guerra, se enquadram em casos de tortura e perseguição. A descoberta se deu através de uma análise com os filhos dos sobreviventes, observando que os mesmos tinham uma probabilidade maior de estresse.

Os traumas sofridos foram tão fortes e o ambiente no qual foram colocados foi tão prejudicial, que através do DNA, surgiram alterações genéticas e os sinais podem ser transmitidos através dos genes para os descendentes dos sobreviventes do Holocausto. Assim, nomeando a teoria de Herança Epigenética.

Em uma declaração para o jornal britânico The Guardian, Rachel Yehuda, líder da pesquisa diz “se há um efeito de trauma transmitido, seria em um gene relacionado ao estresse que molda a maneira que lidamos com o nosso meio ambiente”.

Esta frase me fez pensar muito e relacionei-a a outra tragédia na história da humanidade.

Sabe-se da brutalidade da escravidão, porém, me pergunto se o ambiente imposto, as diversas formas de violência e a obrigação de negar suas raízes causaram um impacto genético para os filhos e netos dos escravizados. Seria o sentimento denominado Banzo, transmitido geneticamente?

Banzo (do quimbundo mbanza, “aldeia”), é o nome dado ao sentimento de extrema melancolia que os escravizados sentiam aos serem trazidos do continente africano para o Brasil. Chegando aqui, os africanos eram separados do seu grupo cultural e geográfico, sendo misturados com pessoas de outras tribos, perdendo a comunicação com semelhante, compartilhando apenas as diversas formas de tortura, o trabalho forçado, as condições desumanas, o estupro, a violência assustadora que o ambiente lhes proporcionava. Assim, a saudade de casa, de sua terra natal, do seu povo misturada com um sentimento desolação, matava. Relatos apontam que os africanos chegavam a recusar comida durante dias, alcançando o estado de inanição ou cometendo outros métodos de suicídio.

Agora, imaginem o seguinte cenário:

Brasil, século XXI, 2018. A lenda do “país miscigenado e sem preconceitos” está em debate. Diariamente dados apontam a desmistificação desta lenda. Ainda somos os que mais matam, os que mais morrem, os que mais são presos, os mais desempregados. Entretanto, minoria nas universidades e cargos de chefia. Os filhos da diáspora africana não sabem o país de origem de seus ancestrais, os pretos retintos (ainda) são os que mais sofrem com um país estruturalmente racista, como por exemplo, sendo preteridos em meios empresariais e algumas de suas características físicas (nariz, cabelo, boca) negadas pelo padrão branco de beleza imposto.

Além do Banzo, não se sabe aonde foi a Casa (Aldeia) nem para sentir o Banzo direito. Não se sabe se é pecado o culto dos orixás. Não se sabe nomear os próprios traumas.

Talvez, seja esta a Herança Epigenética dos descendentes dos escravizados. A severa perda de identidade e as marcas do seu processo.

Agradecimento: esse aqui vai pra Grazielle Campos, que me ajudou na tradução do artigo do The Guardian. Com isso, eu consegui ter uma base melhor do que é a Epigenética. Valeu Grazi!

Últimas matérias

DENNIS CUNHA

Paulistano, estudante de Direito, amante da cultura hip-hop e metido a escritor.

ENVIE A SUA MENSAGEM

ENVIE A SUA MENSAGEM

A Hora e a Vez de Jeremias

A HORA E A VEZ DE JEREMIAS
Jeremias - Pele e o afro no quadrinho
A HORA E A VEZ DE JEREMIAS
Jeremias - Pele e o afro no quadrinho

O selo Graphic MSP, coleção que reúne releituras dos personagens de Mauricio de Sousa, chega a 18° edição com Jeremias – Pele, com roteiro por Rafael Calça e desenhos por Jefferson Costa. Uma belíssima HQ que aborda o racismo pela visão de uma criança.

O afro no quadrinho nacional é personagem distante, o próprio Jeremias era, em grande parte, um coadjuvante. É curioso analisar que grandes editoras como Marvel e DC buscam protagonismo afro atualmente e o quadrinho brasileiro não possuir esse norte.

Em algumas análises, esse foco das grandes estadunidenses é visto como objetivo mercadológico e não ideológico, mas ainda assim vemos grandes histórias, como a Miss Marvel Kamala Khan, de G. Willow Wilson ou o Lanterna Verde John Stewart que ganhou relevância nas mãos de Dennis O’Neil e Neal Adams.

Voltando ao Brasil, o atraso na representação do afro nas HQs é muito forte. O mais famoso que pode se aproximar em representatividade é a Turma do Pererê, criada por Ziraldo, mas que apresenta de forma estereotipada através do personagem do folclore Saci.

Mas chegamos a hora e a vez de Jeremias. Na contracapa de Jeremias – Pele, o rapper Emicida diz “Jeremias está chegando na hora certa. Sem mais atrasos”. Sempre foi tempo de falar sobre racismo e colocar o afro com protagonista, mas o momento do lançamento foi o mais propício para Jeremias.

O alto índice de mortes de afros no Brasil e a morte de Marielle Franco foram fatores externos que “obrigaram” a vinda de Jeremias. Dentro dos quadrinhos brasileiros, o crescimento de Marcelo D’Salete é meteórico. O autor trouxe grandes publicações sobre a atualidade e a história afro, como Angola Janga, Noite Luz e Cumbe, sendo o último reconhecido internacionalmente com o  prêmio Eisner.

A hora de Jeremias chegar pode ser a mais atrasada, mas ela chegou, o futuro dirá se o quadrinho nacional abrirá os olhos para a importância dos afros nas HQs.

Últimas matérias

Gustavo Nogueira

estudante de jornalismo, formado em cinema na lafilm institute, autor do livro "quadro a quadro". além do êxodo, é colaborador do universo hq.

ENVIE A SUA MENSAGEM

ENVIE A SUA MENSAGEM

Ao Oriente Médio em Quadros

Ao Oriente Médio Em Quadros
Conheça as histórias em quadrinhos que aproximam a realidade distante do Oriente Médio
ao oriente médio em quadros
Conheça as histórias em quadrinhos que aproximam a realidade distante do Oriente Médio

Notícias ligadas aos conflitos do Oriente Médio e seus arredores estão a todo momento nos jornais e revistas. Entender tudo o que ocorre e compreender a realidade das pessoas que estão nesta região é muito difícil. Atualmente há diversas obras que apresentam a vida no Oriente Médio.

A série que está em seu terceiro volume no Brasil pela Editora Intrínseca, O Árabe do Futuro, de Riad Sattouf, apresenta a autobiografia do autor, focando em sua infância e chegando a sua juventude. Riad traz um pouco das dificuldades financeiras e religiosas do ponto de vista de uma criança, uma visão única e importante.

A obra de Sattouf lembra o premiado Persépolis, de Marjane Satrapi, onde conhecemos a vida da autora após a revolução islâmica, ocorrida no Irã. A HQ ganhou maior reconhecimento após ser adaptada para o cinema na animação homônima. A grande edição, mais de 350 páginas, foi publicada no Brasil pela Companhia das Letras.

Quando se fala de jornalismo em quadrinhos, o grande nome é Joe Sacco. O quadrinista-jornalista maltês produziu obras como Palestina e Notas Sobre Gaza, HQs que mostram a riqueza do jornalismo em quadrinhos e se tornaram referência para esse formato de jornalismo. O Mundo de Aisha de Ugo Bertotti é outra grande obra do gênero.

Por vermos os personagens e por vezes pela visão do personagem, há muita emoção na história, como o romance Habibi de Craig Thompson. Na trama acompanhamos Dodola e Zam, crianças escravas unidas e separadas pelo destino, que compartilham um amor sem medidas.

Através da arte é possível viajar sem sair do lugar e por essas obras aprender sobre uma realidade importante e por muitos ignoradas.

Últimas matérias

Gustavo nogueira

estudante de jornalismo, formado em cinema na lafilm institute, autor do livro "quadro a quadro". além do êxodo, é colaborador do universo hq.

ENVIE A SUA MENSAGEM

ENVIE A SUA MENSAGEM

Quadrinistas e politizadas

Quadrinistas e politizadas
Projeto online reúne charges políticas feitas somente por mulheres
Quadrinistas e politizadas
Projeto online reúne charges políticas feitas somente por mulheres

No universo da internet e principalmente nas redes sociais, vivemos um momento onde muito se fala de política e de posicionamentos dos grupos considerados minoritários. Em meio a isso, as quadrinistas Thaís Gualberto, Aline Zouvi, Carolina Ito e a pesquisadora Dani Marino criaram o projeto “Políticas”: o objetivo é oferecer um espaço para que quadrinistas publiquem seus cartuns, charges e tiras.

“A ideia de que mulheres não desenham charges ou não se interessam por política ainda é bastante forte no inconsciente coletivo, quando na verdade, sabemos que mulheres chargistas que atuaram nos mesmos veículos e com a mesma proficuidade que autores renomados, apenas não tiveram o mesmo prestígio e visibilidade.” explica Dani Marino, uma das fundadoras.

O projeto foi iniciado em novembro de 2017, e a página chamou atenção ao reunir dezenas de quadrinistas para homenagear Marielle Franco, vereadora do PSOL assassinada em março de 2018.

As mulheres que possuem interesse de participar do Políticas podem enviar seus desenhos para  o e-mail: politicashq@gmail.com.

Redes sociais do Políticas:

https://www.facebook.com/politicashq/

https://www.instagram.com/politicashq/

https://politicashq.tumblr.com/

Últimas matérias

Estranhos Frutos

Estranhos Frutos…A violência é ingrediente cotidiano na vida dos de baixo. Desde quando seus corpos negros eram pendurados nos álamos do sul dos EUA.* Estranhos

Leia Mais »

Gustavo Nogueira

estudante de jornalismo, formado em cinema na LAFilm Institute, autor do livro Quadro a Quadro. Além do Êxodo, é resenhista do Universo HQ.

ENVIE A SUA MENSAGEM

ENVIE A SUA MENSAGEM

A censura de Castanha do Pará

A censura de Castanha do Pará
Entenda o caso da censura com a HQ Castanha do Pará, de Gidalti Jr.
A censura de Castanha do Pará
Entenda o caso da censura com a HQ Castanha do Pará, de Gidalti Jr.

A arte da capa de Castanha do Pará, de Gidalti Jr., foi retirada dia 16 de abril de uma exposição do Parque Shopping em Belém, motivo: a ilustração mostrava um garoto de rua com cabeça de urubu – personagem principal da obra -, fugindo de um policial militar no Mercado Ver-o-Peso. Anterior a este episódio, o quadrinho é o primeiro vencedor da categoria Histórias em Quadrinhos do Prêmio Jabuti, um dos principais prêmios de literatura do país.

A exposição estava ligado ao debate “Negritude no cinema e HQs”, e buscava mostrar a diversidade brasileira com a arte de Gidalti mostrando a cultura de Belém. Outros artistas como Jack Jadson, Eric Black e Joe Benett também participaram.

A polêmica iniciou após a publicação de um policial militar na página do Facebook – “Guerreiros do Pará”. O PM declarou estar ofendido e ameaçou processar o Shopping. Por causa da pressão, o Parque Shopping cedeu e retirou a ilustração, declarando que irá colocar uma nova arte de Gidalti no local.

Após ser informado da remoção da obra, o autor se manifestou pelas redes sociais declarando: “total repúdio aos conceitos arbitrários que classificaram a imagem como uma ofensa à polícia militar” e “uma vitória parcial da ignorância, do medo e de forças antagônicas à liberdade”.

É importante ressaltar que a crítica a arte de Gidalti surgiu do Facebook e não diretamente da Polícia Militar, como informado pelo artista. “Algumas pessoas ligadas à Polícia Militar já se manifestaram corrigindo as críticas, apontando que elas não têm fundamento. No fim, a situação toda se mostrou irônica e patética”, diz Gidalti Jr.

A censura com Castanha do Pará ocorreu próximo ao caso da adaptação de O Diário de Anne Frank em quadrinhos, em que pais de alunos de uma escola de Vitória/ES desaprovaram a leitura da HQ, devido a um trecho em que as personagens conversam sobre o órgão sexual feminino.

Últimas matérias

Gustavo Nogueira

estudante de jornalismo, formado em cinema na LAFilm Institute, autor do livro Quadro a Quadro. Além do Êxodo, é resenhista do Universo HQ.

ENVIE A SUA MENSAGEM

ENVIE A SUA MENSAGEM

Um povo sem memória

Um povo sem memória
Se reconhecer negro é um exercício diário de desconstrução de padrões
Um povo sem memória
Se reconhecer negro é um exercício diário de desconstrução de padrões

Quando se pensa na história do negro no mundo, a primeira imagem que vem a mente é a escravidão dos povos africanos, a desumanização do homem objetificando o outro. Os números dessa diáspora são incalculáveis, temos noção de onde começa e “termina”, mas não dos estragos no meio desse processo longo e tortuoso. A mancha dessa história feita de sangue, preconceito e intolerância ainda é presente e continua fazendo vítimas.

Segundo o último censo realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (2010), cerca de 50,7% da população brasileira se declara negra, considerando que, de acordo com o IBGE, o povo brasileiro é definido pelas categorias: indígenas, amarelos, brancos e negros (pretos e pardos). Atualmente somos o segundo maior país negro em população do mundo, perdendo apenas para Nigéria que fica no continente africano.

Direcionamos nosso olhar ao Brasil e vemos em seu povo as marcas dessa imigração forçada e violenta, um povo que muitas vezes não se reconhece e não se encontra, pois não estuda sua própria trajetória, não reflete sobre o passado para gerar processos eficazes que realmente mudem o presente/futuro.

Muitos povos constituem nossa nação e contribuíram para nossa formação social e cultural, os povos negros que foram escravizados não trouxeram para nosso país apenas sua mão de obra, mas também novas técnicas, ferramentas, danças, religião, comida, diversidade que se fundiu com tantas outras e formou o povo brasileiro. A Lei n° 10.639 altera a lei n° 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira”. Desde então a Lei assegura o direito ao ensino da memória negra.

Não estudamos a história da diáspora negra e, quando nos deparamos com ela poucas partes e nomes nos são apresentados. Quando falamos de Zumbi não nos contam de sua mulher a guerreira Dandara, que ao seu lado (e de tantos outros) formavam o Quilombo de Palmares e, lutaram pela liberdade de seus irmãos escravizados.

O patriarcado não está habituado a contar nas redes de ensino a história da mulher em qualquer aspecto, quando geramos o recorte de raça o apagamento da mulher negra se intensifica, primeiro por serem mulheres e depois por serem negras, os rastros de suas narrativas foram distorcidos e apagados. 

Se reconhecer negro é um exercício diário de desconstrução de padrões, pois não nos vemos representados na história. O ponto em que devemos partir, deve ser o de que vidas negras importam, que mulheres negras, mães solos, são uma maioria na periferia como único alicerce de suas famílias e, essas mulheres são silenciadas, são apresentadas apenas aos trabalhos domésticos e se conformam ali, pois a sociedade reforça esses padrões, se omitindo, negando o básico, suprimindo a memória de tudo que foge do padrão.

Graças há muitos anos de luta e, a crescente onda jovem de mudanças em vários aspectos e camadas, esse cenário está mudando positivamente, para as atuais e futuras gerações.

Últimas matérias

Gleiziele Oliveira

Estudante de jornalismo, já fez trabalhos como produtora audiovisual. Amante de livros e boas histórias. Também trabalha como Atriz no grupo Dádivas da Melanina e, como Assistente de Produção Editorial na empresa Caboverde Tecnologia e Serviços.

ENVIE A SUA MENSAGEM

ENVIE A SUA MENSAGEM

O que está por trás das Fake News: a pós-verdade

O que está por trás das Fake News: a pós-verdade.
Ensaio sobre o Fake News
O que está por trás das Fake News: a pós-verdade.
Ensaio sobre o Fake News

Um dos motivos para as pessoas acreditarem nas Fakes News está no significado da palavra pós-verdade: termo criado em 2016 pelo departamento da universidade de Oxford para definir circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência na opinião pública do que apelos a emoção e crenças pessoais – em outras palavras; se uma pessoa lê uma notícia que condiz com o que pensa, mesmo sem checar as fontes das informações ela tende acreditar como verdadeira.

O termo se popularizou mundialmente depois do artigo da revista The Economist: Arte da Mentira. No texto é apontado como muitas campanhas políticas se beneficiaram da pós-verdade, principalmente por criar notícias falsas ao candidato adversário, criando uma situação sensacionalista – apelo emocional – e induzindo valores contrários ao que a sociedade cultiva – crenças pessoais.

Para combater esse efeito desastroso na sociedade, o Êxodo recomenda uma agência de checagem que pode te ajudar a saber se uma notícia é falsa ou não:

  • Fato ou Fake: Um serviço do G1 que ajuda a ter um monitoramento e uma checagem de conteúdos duvidosos disseminados pela internet e celular.  

Últimas matérias

Diego Queiroz

estudante de jornalismo e videomaker, apaixonando pela vida e amante da filosofia. Atualmente tem um texto no site do Omelete e já estudou na AIC (Academia Internacional de Cinema).

ENVIE A SUA MENSAGEM

ENVIE A SUA MENSAGEM

Quando éramos Reis

QUANDO ÉRAMOS REIS
“Dizem que o diabo veio nos barcos dos europeus, desde então o povo esqueceu que entre os meus, todo mundo era Deus”
QUANDO ÉRAMOS REIS
“Dizem que o diabo veio nos barcos dos europeus, desde então o povo esqueceu que entre os meus, todo mundo era Deus”

Assim termina o segundo verso da música “Mufete”, do Emicida. E antes de explicar o motivo de cita-la, vale ressaltar algumas informações sobre o álbum que carrega esta música: Emicida viajou para o continente africano, passando por Angola, Moçambique e Cabo verde, trazendo referências africanas para suas músicas, tanto nas batidas quanto na lírica.

Dito isso, vamos à história: fomos escravizados, e não escravos. “Mas o que éramos antes disso tudo? De onde viemos, já que o continente africano é tão vasto? Quem foram nossos ancestrais?”. Algumas dessas grandes questões que a diáspora africana carrega, tem explicações em 1890, quando Ruy Barbosa, Ministro da Fazenda no Brasil, ordena por meio de um despacho, a destruição de documentos referentes à escravidão. 

Com isso, apagando todo o registro que poderíamos ter de nossos ancestrais, deixando toda nossa identidade destruída. Vale ressaltar, também, outro episódio da época: a Árvore do esquecimento, localizado em Benin. Em torno dessa Árvore, os escravos que eram trazidos da Nigéria, e passavam por Benin, deviam dar nove voltas, as escravas, sete, para que esquecessem de suas terras, de suas lembranças geográficas e de sua identidade cultural. Uma lástima para o povo afro.

Voltando ao título do texto, éramos reis, sim, também poderosos, basta olhar o exemplo de resistência do Rei Mandume, homenageado por Emicida, no mesmo álbum de Mufete. Mandume foi o último rei do povo Cuanhamas, localizado na Namíbia. Em seu reinado, expulsou comerciantes portugueses, travando batalhas contra portugueses e alemães. Acabou por vencido pelos alemães e de acordo com a tradição, Mandume preferiu se suicidar ao se render.

Mas, não só de batalhas e resistências viveram os reis africanos. Por exemplo, o Rei Mansa Musa, é considerado o homem mais rico da história, superando até mesmo o Imperador Augusto César. Em uma lista da Time de 2015, o Imperador Augusto César aparece em segundo lugar com US$ 4,6 trilhões, enquanto a fortuna do Rei Mansa é considerada inestimável. Seu reinado foi durante o século 14, no território de Mali, este destacado por grandes riquezas naturais, Mansa era o maior produtor de ouro no mundo.

Últimas matérias

Dennis Cunha

Paulistano, estudante de Direito, amante da cultura hip-hop e metido a escritor.

ENVIE A SUA MENSAGEM

ENVIE A SUA MENSAGEM