O tombo, o motorista, a Peppa Pig

O tombo, o motorista, a Peppa Pig
O dia continuava rotineiro, trânsito, um leve cochilo despertado pelo meu próprio ronco, pessoas conversando sobre a vida, tudo onde deveria estar.
O tombo, o motorista, a Peppa Pig
O dia continuava rotineiro, trânsito, um leve cochilo despertado pelo meu próprio ronco, pessoas conversando sobre a vida, tudo onde deveria estar.

Era uma manhã de segunda-feira ensolarada e extremamente quente, acordei suada com o nariz entupido por conta do ventilador e com uma sensação que eu não deveria sair de cama. Entrei no banheiro e evitei o espelho como sempre (ninguém merece se olhar pela manhã com os olhos cheios de remela) liguei o chuveiro familiar, tirei os chinelos e senti aquele chão frio. A água morna ia acalentando meus músculos e era reconfortante, a sensação de que eu não deveria sair da cama havia passado. Desliguei o chuveiro e me enrolei na minha enorme toalha rosa. Vesti minha calça preferida (florida) e minha blusa marrom do ‘Capitão Caverna’(eu definitivamente não tenho muito senso de moda pela manhã).  

Abri a porta e recebi um bafo quente de um típico dia de verão paulistano na cara, subi a viela lentamente para evitar a fadiga, cheguei à rua e fui pega desprevenida pelo sol que brilhava mais do que passista de escola de samba. Cheguei ao ponto, alguns rostos conhecidos, tudo normal como deveria ser em uma simples segunda. Entrei no ônibus e sentei na penúltima cadeira do fundo, de frente para porta, as pessoas foram preenchendo os outros lugares e eu como sempre rezando para ninguém sentar ao meu lado.  O dia continuava rotineiro, trânsito, um leve cochilo despertado pelo meu próprio ronco, pessoas conversando sobre a vida, tudo onde deveria estar.

O ônibus já estava se aproximando do meu ponto, então comecei a me espreguiçar e levantar, ele parou no sinal, fiquei em pé e tomei o meu posto de frente as escadas da porta do fundo, segurando bem as barras laterais para não cair, aquele trajeto era tão comum que eu contava mentalmente os segundos para o farol abrir, na porta do meio também a postos, estava um rapaz, branco, pernas longas, bermuda, mochila, nada fora do padrão. O sinal abriu fez aquela pequena curva que os meus joelhos já estavam acostumados, parou em frente ao meu ponto e abriu à porta, o rapaz das pernas compridas saio em um pulo, eu no meu ritmo normal fui descendo degrau por degrau segurando na porta direita, até que tudo aconteceu.

Em um piscar de olhos a porta fechou no meu pé e na minha mão direita, estava com mais da metade do corpo para fora, o pé esquerdo na poça de água suja, pedras, folhas e galhos, o ônibus começou a andar devagarinho e a porta pressionando cada vez mais meu lado direito, eu não conseguia mais pensar em nada. A vida parou por um instante, “Meu Deus eu vou morrer arrastada” até que fui despertada do meu devaneio com os gritos das pessoas que tentavam chamar a atenção do motorista. De repente sinto um alívio no e um solavanco, cai com tudo no chão, com os olhos fechados sinto a água inundando minha roupa como uma intrusa sem limites. Respirei fundo, escutei um som abafado de vozes muito perto perguntando se eu estava bem, abri os olhos e vi mãos e rostos vindos ao meu encontro com ar de aliviados, começam a tentar me puxar para eu levantar, mas me pegaram de mal jeito, me irritei com aquele puxa, puxa e me levantei sozinha. Ao ficar de pé um zunindo cresceu na minha cabeça, meus joelhos estavam amolecidos, mas estava bem, não vi nenhum sinal de sangue então relaxei um pouco, olhei a minha volta, todos estão com olhos arregalados como se esperassem uma criança começar a andar. Virei-me meio troncha e dei de encontro com o olhar culpado do motorista.

Desculpa moça, eu não te vi… você está bem?

Eu não quebrei nada, mas estou com dor

Desculpa mesmo, eu não te vi descendo, foi tudo tão rápido, você quer que eu te leve para o hospital?… Vem entra. Como faço agora?

Olhei em volta, todos voltaram para suas vidas, os passageiros foram para seus lugares no ônibus. Senti que meu braço esquerdo era o que doía mais, pois cai em cima dele, encaixei firme rente ao corpo e subi para o ônibus com os joelhos ainda bambos, o motorista continuava com os olhos arregalados.

Em todos esses anos de profissão isso nunca me aconteceu, me desculpa mesmo, não foi minha intenção.

– Tudo bem, não tem problema, eu sei que você não fez de propósito.

– Vou te levar para o AMA, tudo bem?

Na hora eu só queria sair dali, tomar um banho quente e tirar toda aquela lama do corpo. Peguei o celular e liguei para o trabalho.

Como assim caiu do ônibus Gleize?

Expliquei o ocorrido, e sabia que aquela pergunta ia ser recorrente até o final do dia. Avisei meus irmãos que avisaram minha mãe que me ligou desesperada logo em seguida, a acalmei, e ela disse que iria ‘matar’ o motorista, eu dei risada e olhei para ele, estava pálido como um defunto, suava frio e dirigia lentamente, desliguei o telefone.

O senhor está bem?

Sabe minha filha, eu sei que foi você quem caiu, mas eu não to bem não, acho que minha pressão caiu.

Ele me deu um sorriso amarelado e respirou fundo, lembrei que tinha saquinhos de sal na bolsa para essas eventualidades e lhe dei um. Ele aceitou de bom grado e consumiu depois de alguns segundos a cor voltou ao seu rosto.

Nossa eu te derrubo e é você quem me salva, muito obrigada moça, e, por favor, me perdoe, não foi minha intenção.  

– Tudo bem, eu entendo, estou viva e é isso que importa

Conversamos muito enquanto estávamos parados no trânsito, com o tempo o sangue esfriava e a dor aumentava e eu só rezava para chegar logo. Depois de 40 minutos chegamos ao AMA, eu desço torta e completamente suja do ônibus. Entro e todos me olham, no primeiro momento acho que é por conta de estar mancando um pouco, mas depois percebo que é por conta da lama já seca grudada nas minhas costas. O local estava cheio, não tem onde sentar fico em pé sem reclamar, pois não sei se teria forças para aguentar levantar. Depois de 10 minutos me chamam para o pré-atendimento, pressão e temperatura normais, conto o que aconteceu, e o enfermeiro arregala os olhos, faço aquela cara de ‘é, eu sei’ e sigo para as cadeiras do corredor. O motorista me acompanha como uma sombra culpada. Meu irmão finalmente chega e ele respira fundo, pede desculpas e vai embora. Depois de 15 minutos e ainda sem atendimento médico, minha mãe chega, me olha de cima a baixo e cai no riso, (tudo bem, um dia eu iria dar risada). 50 minutos depois e chama uma tal de “Gislene santos” vulgo “Gleiziele” no caso EU. A médica não me examinou, apenas perguntou o que estava doendo e digitou no computador, saio da sala me arrastando. Depois de 10 minutos me chamam na sala de raios-X, chapas de praticamente o corpo todo. 30 minutos depois e a médica que mal me olhou diz que não quebrei nada (isso eu já sabia) me dá um atestado e uma dipirona na bunda. Sai de lá agarrada em minha mãe com o corpo todo dolorido e a injeção vibrando, ela parou, me olhou bem e começa a rir.

há há  Peppa pig! Filha você é a Peppa, até na lama você estava brincando.

Nesse momento minha dignidade foi ao pé, e as risadas saíram abafadas com a dor. O que sobra dessa história é um novo apelido, e um bom caso para os meus netos.

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Gleiziele Oliveira

Estudante de jornalismo, já fez trabalhos como produtora audiovisual. Amante de livros e boas histórias. Também trabalha como Atriz no grupo Dádivas da Melanina e, como Assistente de Produção Editorial na empresa Caboverde Tecnologia e Serviços.

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