Black Alien e a celebração da sobriedade
Black Alien e a celebração da sobriedade

Gustavo de Almeida Ribeiro, o Gustavo de Nikiti, ou como é mais conhecido, Black Alien, um dos rappers mais respeitados da cena, lança seu terceiro álbum de estúdio.

Depois de Babylon By Gus – Vol. I: O Ano Do Macaco (2004), a participação no Planet Hemp, colaborações com outros artistas, como o lendário Sabotage, o segundo lançamento de álbum e a conhecida luta contra as drogas…

Luta que o artista deixou claro em entrevistas e em uma minissérie de seis episódios sobre o processo de criação do segundo álbum, o Babylon By Gus – Vol. II: No Príncipio Era O Verbo (2015) período em que ainda estava em processo de recuperação. Neste novo álbum, Gustavo ainda tem algumas coisas que precisam ser faladas e principalmente, ouvidas.

No álbum Abaixo de Zero: Hello Hell, Black Alien faz jus ao seu apelido, originado na época da escola, em que ele estudava em um colégio carioca de classe média e era um dos únicos alunos negros, sentindo-se fora daquele mundo, um alienígena negro. As linhas sinceras e o flow sempre tranquilo do rapper falando de todas as suas cargas e dessa nova vitória são de outro mundo.

O diálogo que o artista traz para o público sobre seus demônios é deixado já na segunda faixa “Carta pra Amy”. Amy Winehouse foi uma incrível cantora que teve a trágica morte em 2011, após tomar doses excessivas de álcool. Na época, falou-se muito da pressão da artista e seus problemas psicológicos. E a identificação fica no desabafo das linhas abaixo:

Logo depois, Alien nos traz uma love song, boa pra bater de frente com a romântica “Como Eu Te Quero” do primeiro álbum, fica a dica aí pra dedicar pra elx.

E aí vem o single do álbum, a “Que Nem O Meu Cachorro”. Traduzindo bem, nessa música ele está falando pra todo mundo “tô tranquilo gente, minha paz está intacta”, diferente de tempos atrás. E isso é importante e reafirmado na música seguinte “Take Ten”, nos versos:

Mais tarde no álbum, falo agora sobre a faixa que considero mais mais forte e a última que analiso aqui.

Em “Aniversário de Sobriedade”, Black Alien traduz o que foi cair em si sobre estar viciado em drogas, usando-as nos estúdios, influenciando negativamente e diretamente no seu processo criativo, refletindo sobre quem as usa e o porquê as usa. Gustavo fala que viaja para outros lugares quando precisa acalmar o vício, reconhecendo a necessidade de brecar o uso, mas não de largá-lo.

Eu nunca ouvi uma música que demonstrasse tanto o impacto e reflexão de um artista sobre o vício de drogas. Não sou moralista, mas estamos acostumados com o contrário disso, a exaltação do uso.

Gustavo teve coragem de bater de frente consigo e nos trazer isso da forma mais crua e lúcida. Teve coragem de conversar com seus demônios e escrever sobre todos eles.

Gustavo de Nikiti comemora. Está vivo, está criando, mesmo que em meio a Babilônia, seja a do mundo afora, seja a interna.

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Dennis Cunha

PAULISTANO, ESTUDANTE DE DIREITO, AMANTE DA CULTURA HIP-HOP E METIDO A ESCRITOR.

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