Bença e o Resgate
Bença e o Resgate

Chega o dia 13 de março e o Djonga, novamente, com os dois pés na porta, seguindo a tradição da data, lança seu terceiro álbum, o Ladrão. O rap precisava disso, e o Djonga sabe que o rap precisa dele. Não só o rap, como o público brasileiro, em especial o negro. E eu digo isso por tudo o que foi rimado e comemorado neste álbum, em especial, a família e o talento de trazer de volta, sem esquecer da ancestralidade, o resgate do pertencimento.

Fui finalmente a um terreiro de Candomblé. Admito que demorei.

Fala-se muito do preconceito racial cometido pela branquitude, mas eu cresci em uma família cristã, cresci em uma igreja cristã e principalmente, em um sociedade que demonizam as religiões de matriz africana. Mesmo o Estado constitucionalmente declarado laico, é uma sociedade culturalmente e politicamente cristã.

O que quero dizer é que demorei a ir a um terreiro, conhecer o que o culto dos orixás tem a oferecer devido a todo o preconceito que foi alimentado no meu crescimento. Mesmo sendo um jovem negro em movimento, que discute pautas raciais e sociais, existem algumas coisas que demoram mais tempo a serem desconstruídas.

O terreiro que fui chama-se Associação Ile Axé Kalamu Fun Fun. Eu cheguei bem cedo, perto do final da tarde, as pessoas estavam preparando a decoração com folhas, para depois serem colocadas nas entradas do salão em que iria acontecer a festa e ritual para os orixás. Perguntei o motivo disto e foi-me explicado que é para afastar o Egum, nome dado a espíritos de pessoas que morreram e vagam perdidas, em desordem.

Neste mês de abril tinha feijoada e festa para Ogum, o Orixá ferreiro, senhor da tecnologia e agricultura.

Vale destacar o cuidado e respeito das pessoas que participam do Candomblé, a preocupação com a organização e limpeza para que tudo estivesse perfeito para os principais convidados da cerimônia, os orixás.

Um dos pontos mais marcantes no Candomblé são os atabaques (pelos Ogans) e os cantos, muitas vezes regidos pelo Pai de Santo da casa. Não contive a emoção, me arrepiei e chorei no começo, pela beleza e impacto da cerimônia, onde crianças ainda muito pequenas, participavam copiando os movimentos dos mais velhos, muito atentas e já percebendo a seriedade da ocasião.

O contato com os ancestrais, a dança, a roupa e caracterização de todos me fez refletir em muitas vezes a história dos meus antepassados, as lutas e belezas das culturas do continente africano, bem como a elegância das suas religiões.

No final da cerimônia, foi servida a feijoada e o Pai de Santo – que nos disse que não gostava de ser chamado de Pai de Santo “porque não concebeu santo algum”, preferia ser chamado de Zelador de Santo, cuidando do culto dos orixás e seus fiéis – conversava com os convidados. Quando chamou eu e meus amigos para nos juntarmos a conversa, perguntando nossa opinião sobre a noite, o significado da experiência de cada um.

Nessa conversa, algumas coisas ditas por ele me marcaram muito, em especial, quando dirigiu a mim e meus amigos e disse: “Aqui no candomblé não existe esse preconceito com homossexual, tem um monte de viado, de lésbica, isso não importa pra gente. Eu sou gay, homem aqui não se importa em parecer homem, orixá não tem sexo“ e também: “isso aqui pra vocês é resgate, vocês três são negros, isso é raiz, é olhar lá pra trás, para a África, olhar para seus ancestrais”.

Depois de um bom papo, rimos e nos despedimos.

Voltando ao Djonga, é sobre resgate que ele fala na música “BENÇA” do novo disco. Em entrevista para a Vice, o MC conta que o álbum foi gravado na casa da avó, e a mesma participa no fim desta faixa, em uma oração dando a benção para o neto e a sua caminhada.

A primeira parte da música é uma homenagem a sua avó, exaltando a sua força da mulher negra diante das adversidades e referência para a sua família, um verdadeiro alicerce.

O rapper fala também sobre a boa relação que tem com seu pai na segunda parte da música, tratando-o como verdadeiro herói, sendo exemplo para a criação do seu próprio filho. Há também uma preocupação em pontuar a sorte de ter um pai presente, diferente dos moleques da quebrada do Brasil afora.

Mas, o verso que me deu um grande soco no peito quando ouvi foi:

Eu li muito a respeito das religiões de matrizes africanas, conversei com muita gente sobre elas, assisti vídeos, até escrevi sobre elas nos primeiros textos aqui para o site, mas a experiência que tive no terreiro é impossível de ser transmitida através de qualquer “blog de hippie boy”. Por mais que eu tente, nunca vou conseguir transmitir o que foi aquilo pra mim.

Não será neste texto e nem em outro qualquer lugar que será passado isso.

É ali olhando para os seus familiares, que carregam histórias e lutas imensas, num quilombo urbano, em um terreiro ou em qualquer outro lugar que te traga um contato real com seus antepassados. Para assim como eu, que aprendi o que é resgate, no sentido real da palavra, me senti pertencente e vivi com meus ancestrais.

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Dennis Cunha

PAULISTANO, ESTUDANTE DE DIREITO, AMANTE DA CULTURA HIP-HOP E METIDO A ESCRITOR.

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