Banzo e a dor que herdamos
Banzo e a dor que herdamos

No 8º episódio da 2ª temporada da série Dear White People (Netflix), a personagem Joelle (Ashley Blaine Featherson) fala sobre a interessante descoberta de um grupo de pesquisadores de um hospital de Nova York. No momento despertou a minha curiosidade, mas eu precisava terminar logo a temporada (que por sinal, achei fraca em comparação à primeira). Posteriormente, pensando em pautas para o site, lembrei-me do episódio e resolvi explorar o assunto.

Basicamente, o grupo de pesquisadores nova-iorquinos reuniram 32 homens e mulheres que foram presos em um campo de concentração nazista. As vítimas, além de presenciar os horrores da guerra, se enquadram em casos de tortura e perseguição. A descoberta se deu através de uma análise com os filhos dos sobreviventes, observando que os mesmos tinham uma probabilidade maior de estresse.

Os traumas sofridos foram tão fortes e o ambiente no qual foram colocados foi tão prejudicial, que através do DNA, surgiram alterações genéticas e os sinais podem ser transmitidos através dos genes para os descendentes dos sobreviventes do Holocausto. Assim, nomeando a teoria de Herança Epigenética.

Em uma declaração para o jornal britânico The Guardian, Rachel Yehuda, líder da pesquisa diz “se há um efeito de trauma transmitido, seria em um gene relacionado ao estresse que molda a maneira que lidamos com o nosso meio ambiente”.

Esta frase me fez pensar muito e relacionei-a a outra tragédia na história da humanidade.

Sabe-se da brutalidade da escravidão, porém, me pergunto se o ambiente imposto, as diversas formas de violência e a obrigação de negar suas raízes causaram um impacto genético para os filhos e netos dos escravizados. Seria o sentimento denominado Banzo, transmitido geneticamente?

Banzo (do quimbundo mbanza, “aldeia”), é o nome dado ao sentimento de extrema melancolia que os escravizados sentiam aos serem trazidos do continente africano para o Brasil. Chegando aqui, os africanos eram separados do seu grupo cultural e geográfico, sendo misturados com pessoas de outras tribos, perdendo a comunicação com semelhante, compartilhando apenas as diversas formas de tortura, o trabalho forçado, as condições desumanas, o estupro, a violência assustadora que o ambiente lhes proporcionava. Assim, a saudade de casa, de sua terra natal, do seu povo misturada com um sentimento desolação, matava. Relatos apontam que os africanos chegavam a recusar comida durante dias, alcançando o estado de inanição ou cometendo outros métodos de suicídio.

Agora, imaginem o seguinte cenário:

Brasil, século XXI, 2018. A lenda do “país miscigenado e sem preconceitos” está em debate. Diariamente dados apontam a desmistificação desta lenda. Ainda somos os que mais matam, os que mais morrem, os que mais são presos, os mais desempregados. Entretanto, minoria nas universidades e cargos de chefia. Os filhos da diáspora africana não sabem o país de origem de seus ancestrais, os pretos retintos (ainda) são os que mais sofrem com um país estruturalmente racista, como por exemplo, sendo preteridos em meios empresariais e algumas de suas características físicas (nariz, cabelo, boca) negadas pelo padrão branco de beleza imposto.

Além do Banzo, não se sabe aonde foi a Casa (Aldeia) nem para sentir o Banzo direito. Não se sabe se é pecado o culto dos orixás. Não se sabe nomear os próprios traumas.

Talvez, seja esta a Herança Epigenética dos descendentes dos escravizados. A severa perda de identidade e as marcas do seu processo.

Agradecimento: esse aqui vai pra Grazielle Campos, que me ajudou na tradução do artigo do The Guardian. Com isso, eu consegui ter uma base melhor do que é a Epigenética. Valeu Grazi!

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DENNIS CUNHA

Paulistano, estudante de Direito, amante da cultura hip-hop e metido a escritor.

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