Analfabeto político hoje
O analfabeto político não é mais aquele que desconhece o impacto das decisões políticas sobre sua vida. É verdade que ele não sabe as dimensões desse impacto sobre cada aspecto da vida, pois desconhece detalhes importantes do funcionamento da economia e das instituições.
ANALFABETO POLÍTICO HOJE
O analfabeto político não é mais aquele que desconhece o impacto das decisões políticas sobre sua vida. É verdade que ele não sabe as dimensões desse impacto sobre cada aspecto da vida, pois desconhece detalhes importantes do funcionamento da economia e das instituições

No Brasil de hoje, o analfabeto político não é mais aquele que desconhece o impacto das decisões políticas sobre sua vida. É verdade que ele não sabe as dimensões desse impacto sobre cada aspecto da vida, pois desconhece detalhes importantes do funcionamento da economia e das instituições. O analfabeto político pode ser de esquerda ou de direita, pode ser anarquista, capitalista, comunista, ou ainda um daqueles ingênuos que se dizem “apolíticos”.

Há muitos tipos de analfabeto político. Há os que de fato não falam de política nem se envolvem, como também os que se envolvem até o pescoço. Há os que desconhecem a história e pensam que o presente não tem relação com o passado, mas há também aqueles que fazem questão de conhecer esse passado porque sabem que isso é importante. Para não repetir a história, conhecem os erros cometidos por seus ancestrais, mas não percebem que esses mesmos erros são capazes de vestir uma nova roupagem. Não identificam a continuidade do passado no presente.

Ao contrário do que diz o texto atribuído a Brecht, em que o analfabeto político é apresentado como aquele que “não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos”, o sujeito que estamos descrevendo aqui não perde a chance de comentar os assuntos do momento, às vezes em seu canal do youtube. Pode ser que ele participe ativamente de algum movimento, ou até de um partido político.

O analfabeto político, por mais redundante que pareça, é aquele que não sabe ler a política, porque não sabe quem toma as decisões, não entende a relação de um candidato com seu partido, nem com seus eleitores. Não entende também o que é a correlação de forças: não entende como funcionam as alianças, nem as disputas, nem os acordos de ocasião. Não entende a diferença entre estratégia e tática.

O personalismo é um traço marcante do analfabeto político. Ele acredita, ingenuamente, que vota em pessoas e não em partidos, ou então idealiza um futuro em que não existam partidos, mas apenas um “povo unido”. Ele pensa que a existência de partidos é um defeito da política, pois não percebe que os coletivos se formam porque existem opiniões diferentes sobre o que é melhor para todos.

Ele imagina que as decisões políticas são tomadas somente por indivíduos, menosprezando o processo pelo qual os governantes são selecionados, filtrados e moldados por grupos de interesse que os rodeiam. Às vezes, ele até sabe que esse processo existe, mas imagina que um bom governante teria personalidade (ou vontade) forte o suficiente para ser ele mesmo, o político autêntico, imune a pressões. Ou seja, sonha com um político apolítico.

Ele dá muita importância aos atributos pessoais de um candidato: se é competente ou incompetente, se tem formação acadêmica ou não, se é honesto ou desonesto… se já foi condenado em algum processo ou acusado de corrupção. O analfabeto político não desconfia que uma acusação possa ser mentirosa, ou que uma condenação possa ser injusta. Mas ele se lembra disso quando é tão apegado a um líder que não pode acreditar em nada de ruim que se diga sobre ele.

Ele usa a palavra política como acusação: diz coisas como “essa greve é política” ou “esse movimento é político”, porque confunde a política com seus aspectos mais fúteis: o sectarismo e o partidarismo. Ele acredita que greves e movimentos não deveriam ser políticos, simplesmente porque não percebe que debater o destino coletivo sempre é fazer política.

Ele tem memória curta, não apenas porque esquece em quem votou na última eleição. Mais que isso, ele se esquece de acompanhar os desdobramentos das suas próprias decisões. Depois que elege alguém, ou apóia um projeto de lei, ou um movimento qualquer, ele não se pergunta se a decisão foi acertada. Não faz autocrítica. No máximo, ele se decepciona com o candidato em quem votou, ou culpa alguém pelo fracasso do projeto que apoiou. A memória dele não é apenas curta: é seletiva e conveniente.

O analfabeto político, como qualquer outra pessoa, desenvolve suas primeiras preferências e opiniões políticas simplesmente com base em suas relações afetivas. Aprende com suas principais referências, sejam pais, irmãos, professores ou quaisquer outros, aquilo que é correto ou incorreto na política. A diferença entre ele e uma pessoa politicamente consciente é que o analfabeto político não percebe essa origem afetiva de seus posicionamentos. Por isso, não é capaz de se questionar se a realidade confirma ou não suas ideias: elas já estão confirmadas de antemão.

Como acredita que todos são alienados (menos ele), ele fala mal da “mídia” sem perceber que as suas fontes de informação também são mídias. Acha que suas “opiniões” são inteiramente suas, que não são influenciadas por ninguém. Não checa informações, não duvida de notícias, e quando alguém lhe avisa que ele compartilhou uma notícia falsa, ele se isenta de qualquer responsabilidade, dizendo: “eu só compartilhei”. Duvida das pesquisas de opinião quando elas mostram seu candidato perdendo, mas acredita nelas quando ele está bem colocado.

O analfabeto político não percebe vive dentro de uma bolha, como todos nós, e não percebe a necessidade de transitar entre várias bolhas para entender o mundo e as pessoas que fazem parte dele. Por isso, fica chocado quando entra em contato com a diferença. Diz que “todos os políticos são iguais”, simplesmente porque não observa as diferenças entre eles.

Mas o mais grave é que, muitas vezes, ele não está nem aí. Pode se lembrar e se esquecer de cada um desses detalhes, desde que não precise sair da sua zona de conforto. Ele está sempre com a consciência tranquila, pois a culpa é sempre de um outro.

É claro que as características descritas acima nem sempre andam juntas. Na verdade, há muitos tipos de analfabeto político, e talvez a maior dificuldade seja descobrir com qual deles você se parece mais.

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Henrique Cunha

Formado em sociologia pela USP e atualmente é professor. Adora caminhar na praia e observar as relações sociais

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