Amar (Odiar) é para os fortes
Amar (Odiar) é para os fortes

Em setembro de 2018, Marcelo D2 lançou “AMAR é para os FORTES” seu novo álbum-visual, do formato ainda pouco usado no Brasil, é um dos mais diferentes que já ouvi, com um diálogo de um filme no começo ou fim de cada música.

O álbum passeia pelo subúrbio do Rio de Janeiro, contando uma história que se divide entre a violência da realidade nas favelas cariocas e a aspiração para fugir disso tudo por meio da arte. O personagem do álbum, Sinistro, atuado pelo Sain, filho do D2, carrega conflitos a cada faixa do álbum, destaco as faixas “FEBRE DO RATO}” e “DEPOIS DA TEMPESTADE}”,  elas trazem sentido a ambiguidade do título e do álbum em si.

Mas o D2 não fez barulho só dessa forma no ano passado, como também foi um dos artistas que mais bateu e apanhou da extrema-direita ao fazer críticas do atual presidente. Eu o acompanhei pelo Twitter durante o ano inteiro e a maneira em que ele lidou com tudo isso o fez ganhar mais um fã.

Assisti a uma entrevista do Marcelo concedida para a Vice, e uma das respostas que mais me chamou atenção foi a que ele deu ao escolher sobre o seu filme favorito La Haine (O Ódio). De imediato já fui pesquisar para baixar.

“La Haine” mostra um dia extremamente conturbado de três jovens amigos franceses. Saïd é árabe, Hubert é negro e Vinz é judeu. Eles estão agitados, pois na noite anterior houve um conflito contra a polícia em uma manifestação e um dos manifestantes foi para o hospital após ser espancado por policiais. O filme passa a maior parte do tempo no bairro periférico e pobre, onde os jovens deixam claro o descontentamento com a situação desigual em que vivem. Mas também, o filme fala sobre repressão policial e racismo.

Fazendo uma comparação com os dias atuais, vale lembrar-se da manifestação mais famosa da mesma França do filme, liderada pelos Coletes Amarelos, que começaram protestando contra o aumento do preço do combustível e agora já avançou para o custo de vida em si. O protesto já contabiliza o número de 10 manifestantes mortos.

Um fato interessante é a crítica que o atual presidente Jair Bolsonaro fez a França dizendo que é “insuportável viver na França” por causa da sua política de aceitação com imigrantes. O mesmo foi respondido de uma forma bem irônica por um diplomata francês comparando o número de homicídios entre os países.

É triste que O Ódio continue sendo um filme completamente contemporâneo, mesmo tendo sido lançado em 1995. Vemos os conflitos políticos, a polarização e o ódio sendo uma crescente em todos os âmbitos.

Um verso da música FEBRE DO RATO} resume bem o quero dizer:

“Sou barril de pólvora, pavio acesso

Final traçado desde o começo

Meus amigos já se foram

Eu aqui sozinho engolindo meu choro

Ouço um tiro e a dor me persegue

Eu corro pra longe, antes que o ódio me cegue,

Antes que o ódio me cegue

Eu corro pra longe, antes que a morte me pegue”

*Estarei presente representando o Êxodo no show da turnê do álbum na

próxima sexta-feira (dia 29/03) na Audio Eventos, na Av. Francisco Matarazzo, 694, em São Paulo.

FOTO: BENOIT TISSIER/REUTERS – 24.11.2018

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Dennis Cunha

PAULISTANO, ESTUDANTE DE DIREITO, AMANTE DA CULTURA HIP-HOP E METIDO A ESCRITOR.

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