A luta da periferia
Conheça a HQ "Último Assalto", em entrevista com o roteirista Daniel Esteves
A luta da periferia
Conheça a HQ "Último Assalto", em entrevista com o roteirista Daniel Esteves

Daniel Esteves e seu selo Zapata Edições chamam atenção no meio dos quadrinhos há bastante tempo. A série “São Paulo dos Mortos” figurou entre os destaques por anos, conquistando prêmios e elogios.

Na Perifacon, evento de cultura pop no Capão Redondo que acontece no final deste mês, Daniel em parceria com o desenhista Alex Rodrigues, vai lançar seu novo quadrinho, o drama “Último Assalto”. Na obra conhecemos Kevin, um jovem de periferia que busca seu sonho de ser um boxeador enquanto os problemas de família e financeiros o afligem.

O Êxodo entrevistou Daniel Esteves para falar um pouco sobre o novo lançamento.

Como surgiu a ideia de “Último Assalto”?

Entre muitos temas, personagens e gêneros a explorar, havia um interesse latente em fazer alguma história de boxe, já que sempre fui fã de filmes que abordam esse esporte, desde o clássico Rocky, até outros tantos que fui assistindo durante a vida, incluindo alguns documentários sobre lutadores clássicos. Porém, ideias soltas nunca faltam, pra levar algo a frente preciso de algum outro mote, que me faça tirar a poeira do  teclado e investir tempo numa história.

O tal do outro mote veio quando conheci o trabalho de academias populares, que surgem como espaços que pensam a prática de esportes de forma mais democrática e inclusiva. Isso levou a trama para uma ambientação em São Paulo, lugar frequente em minhas histórias, e um contexto social específico que me interessava falar enquanto tema, unindo aspectos que me instigam a produzir uma narrativa.

A partir daí construí junto com o Alex Rodrigues um projeto, que encaminhamos ao ProAC, uma vez aprovado foi tocar o barco e ligar esse monte de elementos para que funcionassem como uma HQ.

A história de jovens de periferia buscando algo melhor no esporte é algo bem comum de se ouvir. O drama de Kevin é inspirado em alguma história real?

Não exatamente. O trajeto dramático básico do personagem já veio junto com as primeiras ideias. Porém, depois fui pesquisar, conversar, conhecer espaços que tinham a ver com a história, e algumas coisas foram entrando na trama.

Inicialmente pretendíamos que o espaço fosse de fato um lugar que existisse, porém, para os propósitos da trama preferi adaptar um lugar real e criar em cima, tendo mais liberdade na construção da narrativa, até porque não era uma HQ com base histórica, ou baseada em fatos reais. Então, apesar de existir um espaço muito parecido com o ambiente da história, tal ambiente está traduzido/adaptado de forma bem livre.

Grande parte das histórias de jovens e esportes é sobre futebol, vocês mesmos já lançaram duas edições de Pelota. Por que vocês optaram falar sobre boxe?

Se for falar em esporte, Futebol é minha grande paixão. Sempre gostei, continuo amando, mesmo que de forma bem diferente hoje em dia. E sempre quis trazer isso para os quadrinhos, pois acho que o futebol não aparece tanto em narrativas brasileiras, seja quadrinhos, literatura, audiovisual, etc.

Não é a toa que tenho uma série que lancei dois números, o primeiro durante a Copa de 2014 e o segundo na Copa de 2018, além de outras histórias que abordam futebol, como uma que produzi dentro da minha série “São Paulo dos Mortos”, que traz histórias de mortos vivos em nossa cidade.

Por outro lado, o boxe parece ter um atrativo para esse tipo de história que queria contar, não a toa já foram feitos tantos filmes e até alguns quadrinhos nesse universo. Como essa história nasceu da vontade de fazer uma HQ de boxe, não tinha como desvincular minhas ideias desse esporte. Inclusive poderia encaixar, por exemplo, MMA que a história seguiria funcionando, mas preferi ficar no universo do boxe como uma escolha bem pessoal mesmo.

Como foi o processo de pesquisa? Houve dificuldade em encontrar academias de boxe na periferia?

Existem alguns poucos espaços que promovem a prática do esporte de forma mais democrática e inclusiva. Porém, houve um tipo de “explosão” desses espaços, cujo momento já passou. O mais conhecido, que foi o que usamos de inspiração dentro da narrativa, o Projeto Garrido Boxe, teve seu esplendor há alguns anos.

Porém, hoje novos lugares assim começam a pipocar e trazer mais gente para a prática do esporte. E transformações podem acontecer a todo momento. Por exemplo, durante a trama temos um campeonato que é inspirado no maior campeonato de boxe amador do Brasil, a Forja dos Campões. Tal campeonato revelou gente como Éder Jofre, Maguila, Popó e muitos outros.

Na narrativa temos uma personagem feminina que também luta boxe e em dado momento reclama sobre a falta de oportunidades para ela que é mulher. Se viver de esporte no Brasil é difícil, para as mulheres essa dificuldade é multiplicada. E, na edição desse ano da Forja dos Campeões, finalmente as mulheres ganharam espaço e foram realizadas competições femininas. Isso não está dentro da trama simplesmente porque aconteceu depois da história já estar praticamente finalizada, mas teria potência para entrar caso tivesse acontecido na edição do ano passado.

A HQ foi contemplada com o ProAC (Programa de Ação Cultural), algo difícil de se conquistar, em paralelo a área que vocês apresentam na história possui investimento ainda mais baixo. Como foi ver essa dificuldade no meio esportivo?

Acho que o paralelo é bem válido. Apesar do ProAC, ainda faltam muitas ações que incentivem mais e mais os quadrinhos nacionais, ou a cultura como um todo. Vivemos um momento de desmonte de políticas públicas de incentivo à cultura, por parte de governos recentemente eleitos. Essa realidade também é bem presente no esporte nacional, tivemos um pequeno pico de apoio ao esporte por conta das Olimpíadas e ações de governos passados, mas isso tem diminuído muito.

Arte, cultura, esporte, são áreas que o Estado deve agir de forma mais direta, com cada vez mais incentivos, mas uma parte da população está convencida que esse tipo de incentivo é “mamata” pra “artista preguiçoso”. É triste ver isso, mas sei que os artistas, agentes culturais e esportistas seguirão resistindo e fazendo o máximo possível pra mudar essa realidade.

O tom da história é bem tenso e possui poucos respiros. Por que vocês preferiram dar esse tom a história?

Vamos dividir a resposta em duas partes. Primeiro quanto a “tensão”: a intenção desde o início era fazer um drama policial. O esporte é um pano de fundo para vermos a vida do protagonista, as lutas dele para superar uma série de obstáculos que são intensificados pela cor da pele e lugar de origem dele. Faz parte da lógica da narrativa essa tensão.

Por outro lado, quanto aos “poucos respiros”: por mim essa história teria 300 páginas, mas mesmo com a verba do ProAC é difícil ir muito além do número de páginas presente na história. Sou roteirista, dependo do trabalho de parceiros, nesse caso o ilustrador foi o Alex Rodrigues, e com o prazo do projeto, mais o restante de trabalhos que vamos fazendo durante o ano, fica complicado fazer algo maior do que o apresentado no livro.

Para finalizar, qual a importância que vocês veem na história para a periferia e para o esporte?

Não temos qualquer ilusão de sermos porta-vozes da periferia, ou mesmo representantes das demandas dos praticantes de boxe. Esses assuntos estão no livro porque nos interessam, porque temos apreço pelo tipo de mensagem que queremos passar, e porque acreditamos que nossa função enquanto artistas passa por uma interlocução com temas que sejam de alguma forma úteis a debates contemporâneos.

Mas não podemos, enquanto produtores da obra em questão, quantificar e/ou qualificar o quanto ela pode ser importante para essas demandas. Apenas esperamos contribuir de forma honesta com essas questões.

 

Imagem: Capa da HQ “Último Assalto”, por Alex Rodrigues

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Gustavo Nogueira

estudante de jornalismo, formado em cinema na lafilm institute, autor do livro "quadro a quadro". além do êxodo, é colaborador do universo hq.

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