O Negro na cidade brasileira

O negro na cidade brasileira
O negro na cidade brasileira

Da conjuração entre o projeto colonial das classes dominantes brasileiras e a despossessão dos negros escravizados de suas formas de viver aqui no Brasil atirados às senzalas nasce a territorialização das cidades brasileiras. Para além das capitanias hereditárias num escopo maior, no interior das cidades coloniais, se deflagra de modo aparente o aspecto mais visível da sociedade brasileira do período; onde o espaço do negro escravizado, dos libertos, dos agentes do estado colonial e das classes dominantes brasileiras era estritamente definido.

Traçar o histórico das cidades brasileiras incide portanto, em delinear o percurso histórico do racismo, onde a riqueza mobilizada por meio da propriedade, recurso característico para pilhagem econômica nos países colonizados que construiu materialmente espaços onde o domínio senhorial tornou visível a instituição da escravidão e do racismo.

Faz parte de qualquer projeto civilizatório, especialmente aqueles atravessados pela violência sobre outras etnias ou nações, a eliminação de seus espaços tradicionais de cultura e convívio. Desta forma, mesmo os territórios impostos pelo colonizador aos negros trazidos para o Brasil de África eram por eles desenhados e organizados.

A senzala aqui representou o espaço da brutalidade e da violência do cotidiano da escravidão. Mesmo assim, do corpo negro despojado de sua humanidade, sendo proprietário apenas de seu corpo, no pátio da senzala manteve a memória de sua forma de viver, e por meio da resistência no interior da instituição colonial trouxe à nós configurações de seu espaço onde seus ritos, sua dança e sua revolta pode se expressar a despeito do olhar sanguinário do senhor do engenho.

As cidades do Brasil através dos séculos, destaque para Bahia, Rio de Janeiro e São Paulo, foram palco de transformações estruturais que incorporaram neste processo a violência do Estado, junto à intelectualidade higienista [1] em conluio com interesses oligárquicos de empresas familiares interessadas em reproduzir aqui o aspecto das cidades europeias [2].

Este processo remonta à segunda metade do século XIX, quando concentrar propriedade para aqui criar um mercado de terras (no qual logicamente mesmo os negros libertos não teriam acesso) cria as condições para estabelecer a longo prazo mão de obra disponível, que futuramente irá trabalhar para ter terra ou teto.

Podemos entender a promulgação da Lei Eusébio de Queiroz e da Lei de Terras, ambas de 1850, como uma estratégia do Império do Brasil para que a aparência das cidades brasileiras fosse bem definida; numa margem onde os negros futuramente libertos ou sexagenários não fariam parte dos planos de transformação urbana da burguesia brasileira. Deles não gozariam seus benefícios, nem os negros egressos da Guerra de Canudos (1897), que ao retornarem para o Rio de Janeiro sem ter onde morar, se estabeleceriam no chamado Morro da Providência, onde nasceu a primeira favela do Brasil.

A história de transformação das grandes cidades brasileiras, passa pela sistemática expulsão dos negros e pobres marginalizados, que estão no caminho do progresso e do desenvolvimento no entendimento do Estado e seus planejadores.

Os centros das capitais nacionais, historicamente ocupados pelos trabalhadores, são alvos de grandes demolições e reformas para embelezar a cidade com grandes avenidas e monumentos. Esta é a história dos Planos de Avenidas de São Paulo e seus sistemáticos ataques a bairros populares como o Bixiga (antigo Quilombo do Saracura), Cambuci e das intervenções nas margens do Tamanduateí e Tietê; da Reforma de Pereira Passos no Rio de Janeiro que atravessou bairros populares e vitimou aos candomblés mais antigos da cidade e as capoeiras do Morro do Pinto, além de sistematicamente expulsar as populações mais pobres para os morros; dos primeiros planos de avenidas da Cidade Baixa e da Calçada em Salvador.

As cidades brasileiras atualmente, possuem um desenho e expressão marcados pela desigualdade por meio de uma delimitação clara do lugar conveniente aos pobres e bem servido aos ricos.

O histórico e a memória da cultura negra e pobre vitimada pela expulsão dos centros das cidades estão ocultos, porém não mais invisíveis. Atualmente iniciativas como o Cartografia Negra e iniciativas da memória cultural dos centros em lugares como o Bixiga, permitem além de trazer a tona a discussão histórica, entender por meio de quais processos se dá a expansão das nossas cidades, e onde nisso tudo estamos situados.

Notas:

[1] O higienismo foi um movimento da intelectualidade burguesa brasileira, influenciado pelas teorias da Eugenia de Francis Galton, tendo adeptos nas principais universidades brasileiras entre o século XIX e XX, dentre as quais participaram o Clube de Engenharia da Escola Politécnica e a Escola de Belas Artes do Rio de Janeiro.

[2] Este período histórico é conhecido como Belle Époque, no auge da produção artística e intelectual francesa. A burguesia brasileira e setores próximos a D. Pedro II foram largamente influenciados pela estética deste período, e queriam aqui reproduzir os costumes da boemia parisiense e imitar as transformações empreendidas pelo prefeito de Paris Barão de Haussmann.

Alguns links complementares:

Artigo da Urbanista Raquel Rolnik sobre os territórios negros no Brasil

Documentário “Famílias Negras da Brasilândia” sobre o surgimento do distrito

Matéria da BBC sobre um roteiro turístico em São Paulo através da história negra

Matéria da Folha de S.Paulo sobre um passeio que busca mapear a história negra

Livros sobre a relação do racismo e o urbanismo

O negro no mundo dos brancos, de Florestan Fernandes

O centro da cidade de Salvador, de Milton Santos

Pereira Passos, um Haussmann Tropical, de Jaime Larry Benchimol

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Bruno Santana

Estudante de arquitetura e urbanismo, pesquisador e membro do coletivo de faculdades de arquitetura entre:FAUs

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Sobrevivendo no Inferno, ainda

Sobrevivendo no Inferno, ainda
Sobrevivendo no Inferno, ainda

“60% dos jovens de periferia sem antecedentes criminais já sofreram violência policial. A cada quatro pessoas mortas pela polícia, três são negras. Nas universidades brasileiras, apenas 2% dos alunos são negros. A cada quatro horas, um jovem negro morre violentamente em São Paulo Aqui quem fala é Primo Preto, mais um sobrevivente.”

Assim começa “Capítulo 4, versículo 3”, uma das músicas mais fortes que já ouvi, do maior grupo de rap nacional que já existiu, os Racionais Mc’s. O engraçado é que a primeira vez que ouvi, com uns 10 anos de idade, morri de medo e continuei assim por muito tempo.

Claro que teria medo, sou preto, cresci com a minha avó em uma casa bem humilde, no comecinho de uma favela da zona leste de São Paulo, e a molecada sabia muito bem até onde podia ir ali na rua sem ser exposto ao tráfico de drogas. Desde cedo. Hoje, grande parte desses moleques não terminou o ensino médio, tornaram-se pais cedo, tiveram que arrumar um trampo. Uns entraram para o tráfico, outros morreram. O moleque mais próximo de mim naquela época saiu recentemente da cadeia, tava cumprindo pena por roubo. Tive sorte – ou privilégio – de ter sido educado por uma mulher mentalmente estruturada e ciente das malícias da rua, com 21 anos sigo contrariando a estatística.

Mas, voltando a música. Capítulo 4, versículo 3, é a terceira faixa de um dos álbuns mais importantes da música nacional, lançado em 1997, um ano depois antes do meu nascimento, o Sobrevivendo no Inferno.

Abordando temas como racismo, violência policial, crime, pobreza e o massacre do Carandiru. Temas tão importantes e recorrentes no Brasil. Não à toa que em 2018 a Unicamp divulga a nova lista de leitura obrigatória para o seu vestibular para 2020 e inclui o recente lançamento do livro Sobrevivendo no Inferno.

Uma escolha que desagrada grande parte da classe média alta, presente em maioria nas listas de aprovação vestibulares para universidade públicas.

Fui presenteado com o livro no fim do ano passado e terminei de lê-lo em menos de uma semana. Sobrevivendo no Inferno vem com um formato de bíblia até na estética das páginas, com aparência dourada nas bordas, bem tradicional.

O livro parte para análise de parte da história do grupo, a postura política de Mano Brown, a aproximação e exposição da realidade vivida na favela. É uma leitura simples e rápida, já que grande parte do livro é composta por fotos do grupo e as letras do álbum, as análises ganham as primeiras páginas apenas.

E, lendo o livro no fim de 2018, escutando o álbum ainda em 2019. Nada mudou. Ainda tenho medo de não conseguir mais contrair na estatística, de me identificar com aquele preto tipo A que o sistema transforma em só mais um neguinho.

Os negros no Brasil ainda são maioria entre os mortos e vítimas da violência policial. É assustador ver a forma em que o Estado, o sistema judiciário (abordado na música Diário de um detento) e a sociedade tratam com negligência e sem empatia. Os negros e moradores das favelas seguem sobrevivendo no inferno.

Deixo aqui a minha homenagem para o jovem negro Pedro Gonzaga, assassinado de forma covarde por um segurança no Supermercado Extra. Deixo também a minha homenagem para Jenifer Gomes, uma criança de 11 anos, baleada e morta em mais uma triagem e confronto da polícia militar do Rio de Janeiro.

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Dennis Cunha

Paulistano, estudante de Direito, amante da cultura hip-hop e metido a escritor.

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Pray for Me

Pray for Me
Pray for Me

O início de ano tem sido intenso. Famílias, sonhos, referências musicais, jornalísticas e artísticas morreram. Continuar um simples texto se torna difícil.

Em meio a esse turbilhão, a playlist que ouço é a trilha sonora de Pantera Negra, produzida por Kendrick Lamar. A trilha sonora que iniciei a ouvi-la devido ao aquecimento do Oscar ganhou novo significado nesses tempos tenebrosos.

Uma canção em específico entrou em loop em meus ouvidos, a música “Pray for me”, de Kendrick Lamar e The Weeknd. O refrão diz:

Who gon’ pray for me? (Quem vai orar por mim?)

Take my pain for me? (Levar minha dor embora por mim?)

Save my soul for me? (Salvar minha alma por mim?)

‘Cause I’m alone, you see (Porque eu estou sozinho, você sabe)

O caos gera orações, seja no mais simples “Meu Deus, por que?” a orações extensas e com dor.

Ao falar sobre as tristezas coletivas deste início de ano, grandes desastres noticiados a todo momento nas diversas mídias devem ter vindo a sua mente, mas e o desastre diário? Por que a oração e a dor só vem para mares de lama e incêndios catastróficos, mas não para a morte diária e a dor alheia?

Por que os assassinatos de negros e mulheres que sobem a cada nova pesquisa não causa torpor e declarações como as vistas de desastres, com análise de causa e a busca para cessar em definitivo essa destruição?

O embate aqui tratado pode ser visto como uma carta aberta ao amor e a compaixão. Não a uma hierarquia de dores. Lembrar o slogan riquíssimo de que Vidas Negras Importam (Black Lives Matter).

A quem vai sua oração, seu amor? Que no futuro, possamos ouvir Pray for Me e as vozes do refrão diminuam e então cessem não tendo mais quem clamar pelo fim de sua dor e seu medo.

Este texto é dedicado a Pedro Gonzaga, assassinado no supermercado Extra

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Gustavo Nogueira

estudante de jornalismo, formado em cinema na lafilm institute, autor do livro "quadro a quadro". além do êxodo, é colaborador do universo hq.

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Entrevista, mano

Entrevista, mano
Entrevista, Mano

O crescimento do podcast no Brasil tem sido exponencial e a cada momento surgem mais e melhores programas. O Êxodo entrevistou Thiago Leve e Matheus Barros, dois dos criadores do “Podcast, Mano”, programa sobre rap e hip-hop, que chamou muita atenção no último ano, figurando em listas de melhores do ano.

Na conversa podemos conhecer um pouco da criação, suas experiências no podcast e, é claro, falar um pouco sobre rap.

Como surgiu o Podcast, Mano?

Thiago Leve: Em 2016, quando entrei na Genius Brasil, tinha acabado de descobrir a mídia podcast. Faziamos algumas reuniões via hangout, onde discutimos alguns assuntos e novas ideias. Em uma dessas, eu propus a ideia de fazer um podcast da Genius Brasil. Porém, de todos presentes, somente o Matheus Barros demonstrou interesse. Propus mais algumas vezes, mas o resultado foi sempre o mesmo e esse projeto ficou engavetado até novembro de 2017.

Foi mais ou menos essa época que o Paulo Silva entrou para a Genius. O Matheus apresentou a ideia à ele e ele se interessou. Porém, como éramos apenas três membros da equipe, decidimos batizar o podcast com outro nome. Criei um grupo no Whatsapp com o nome “Podcast, mano” como uma brincadeira, devido aos bordões do Raffa Moreira terem se tornado um meme. Os caras acharam engraçado e decidiram adotar o mesmo.

Após ouvirem o primeiro episódio, o Lucas Wildemberg e o Henrique Ramos também interessaram-se pelo projeto. E assim foi composta a equipe administrativa do podcast.

O podcast é uma mídia relativamente nova, por que vocês decidiram fazer neste formato? Vocês cogitaram outro formato?

Matheus Barros: Em 2017 eu comecei a ouvir bastante podcast, era algo extremamente prático e acessível, você pode ouvir facilmente em qualquer lugar fazendo outras coisas e também é fácil de se fazer, apesar da baixa qualidade, com um celular na mão você consegue gravar algo pra disponibilizar na internet.

Então, o Thiago veio com a ideia da gente gravar conversas de interesses em comum, porque a gente não podia se encontrar, geral da Genius vive em cidades diferentes no Brasil inteiro, mas tínhamos assuntos em comum. E lembro até que, mesmo que não fosse algo sobre rap, a gente queria realmente fazer podcast, pois tínhamos ideias de fazermos algo falando sobre séries, principalmente Game of Thrones. Então nunca cogitamos outro formato, essa era nossa intenção desde o início.

Aí quando o Paulo entrou no Genius e fechou com a ideia, já colocamos em prática. O primeiro episódio a gente gravou na semana do natal de 2017. Mas só ressaltando que a gente planeja ampliar a parada, vai ter vídeos também.

O ano passado é visto para muitos como um marco para os podcast, devido a criação do Google Podcasts e a inserção de podcast no Spotify. 2018 também é o início do Podcast, Mano, como foi iniciar um podcast em um ano de tantas transformações?

MB: Olha, inicialmente, eu acho que nunca imaginaríamos chegar até aqui ou levar isso tão a sério, a gente só queria trocar uma ideia entre nós e, por consequência e por influência de sabermos da existência de podcasts, resolvemos disponibilizar essa ideia na internet. Então, nos primeiros meses a gente fez sem compromisso nenhum, tanto que tem espaços de semanas entre um episódio e outro. Só que, naturalmente, a galera foi interagindo, dando feedbacks, trocando ideia, foi surgindo convidados como Rodrigo Zin, Marcílio Gabriel, Negus, Marco Gomes, Load, etc., e aí o Lucas manja de sites, webdesign e essas fita e acabou montando um site pra gente e tudo isso foi aumentando. Se pá que por coincidência foi o ano em que Google e Spotify investiram em podcast, mas não foi algo planejado inicialmente por nós. E aí do meio do ano passado, mais ou menos, até aqui, a gente tem levado isso muito a sério, esse ano a gente vai chegar mais forte ainda.

Pelo ponto de vista do tipo de conteúdo, o Podcast, Mano pode ser visto como um dos pioneiros do estilo no podcast. Vocês tiveram alguma referência para a criação do podcast?

TL: Na verdade, já existiam pelo menos dois podcasts relacionados a cultura Hip-Hop antes do nosso. O primeiro que se tem notícia é o Programa Freestyle, apresentado desde 2006 pelo Marcílio Gabriel, que tornou-se nosso amigo após algumas conversas e a participação do episódio “11 – Sobrevivendo no Inferno | Destrinchando Discos”. O segundo é o RapStream, criado em 2015, que o Negus (Nego-E) é co-criador e também tornou-se nosso amigo durante a produção do episódio “8 – Atlanta”.

Quando criamos o podcast, alguns de nós escutavam o “Letracast”, que o conteúdo serviu como inspiração e referência de produção ao nosso quadro “Destrinchando”.

O conteúdo tratado por vocês (rap, periferia e cultura afro) é raro na mídia e nos podcasts são ainda mais raros. Como foi a recepção do público?

MB: A recepção está sendo a melhor possível, a gente sempre se surpreende a cada episódio, porque, querendo ou não, a gente fica naquela neura de “será que tá firmeza? será que falta informação? será que falamos alguma parada que os fãs podem se incomodar?”, mas até aqui tem sido ótimo. Só temos recebido elogios e isso nos dá um gás pra continuar fazendo cada vez mais e melhorar sempre.

TL: No começo – uns 7 meses depois da criação – nós não recebíamos muitos feedbacks e nem muita divulgação espontânea. Porém, com o passar do tempo, meio que houve um “BOOM” de divulgação. Todo episódio nós recebemos pelo menos uns 3 “textões” da galera avaliando o episódio e dando suas impressões sobre o assunto, sem contar as dezenas de outras interações que ocorrem nas em nossas redes diariamente.

Já por parte de outras mídias e portais, esse fim de ano de 2018 foi meio surreal para nós. Fomos indicados a melhores do ano e saímos em algumas outras listas, como a Red Bull, BuzzFeed e o portal Kondzilla.

Indo para os assuntos abordados, vocês falam do rap nacional e internacional, e do mais antigo ao mais novo. Como vocês buscam abordar esses conteúdos, sendo que muitos deles possuem fãs?    

MB: Isso é uma parada que temos discutido ultimamente, a forma como abordamos os assuntos. O rap nunca foi pauta principal nas grandes mídias e sempre abordado de uma forma marginalizada. A mídia que temos para o rap é de nós para nós praticamente, abordado de uma forma que fica só entre nós, então acaba ficando só na bolha, né?

Acho que falta uma parada mais profissional. Então acredito que a gente tenta fazer o possível para que o conteúdo seja o mais acessível e minucioso, sempre falamos entre nós: “gente, tenta explicar algumas gírias regionais”, “explique as referências que só quem é do rap conhece”, “deem um contexto dos grupos e rappers citados”, porque não é todos que tão nesse nicho diariamente, né? Apesar de gostarem de rap. E o podcast também abre essa possibilidade de ficarmos 2 horas conversando e a galera ouvir de boa e curtir, porque imagina você assistir um vídeo no YT de 2 horas? É foda.

Resumindo, até hoje, ocorreu tudo firmeza, porque realmente mexer com fãs é um bagulho complicado, se tu vacilar em um detalhe, caem em cima.

O que seria para vocês o rap “das antigas” e o da nova geração? Há formas diferentes de tratar as diferentes gerações de rap?

MB: Hoje isso é complicado. As vezes temos no nosso subconsciente que o rap das antigas é o dos anos 90 e aí tem aquela geração underground dos 2000 e a nova geração seria a do Proemishid (Projota, Emicida e Rashid). Mas, porra, Proemishid já tem 10 anos, já surgiu aí, pelo menos, 2 ou 3 gerações. Já tá se formando uma nova geração pós-BK/Djonga/Baco. Então esses termos aí já é complicado de usar. Mas a gente não tem um modo diferente de tratar as gerações dentro do podcast, mas com certeza há modos diferentes de interpretar e analisar cada geração.

É perceptível a grande quantidade de pesquisa sobre diversos rappers e conteúdos relacionados feito por vocês para a criação de um episódio. Como é o processo de criação de roteiro e tema do podcast?

MB: Pra falar a real, o rap é o gênero que mais toca nos fones dos integrantes do podcast e estamos em contato com ele todos os dias, afinal trampamos indiretamente com isso, uns fortalece na correria do Genius e o Paulo e o Ramos, por exemplo, trampam com audiovisual e muito do conteúdo é voltado pro rap.

Com isso, inevitavelmente, todos já tem um conhecimento legal sobre as novidades e o que rola dentro do rap, então sobre esses conteúdos relacionados e todos os comentários feitos dentro dos episódios são naturais de conhecimento de cada um para complementar as ideias.

Agora, sobre o tema principal do podcast, com certeza é feita uma pesquisa detalhada, a gente monta uma estrutura pro roteiro dependendo do quadro e vamos pegando informações em entrevistas e declarações, além de deixar alguns comentários pessoais e interpretações já no próprio roteiro para gente ter um norte do início ao fim do episódio.

Mas não temos um processo de criação de temas, a gente tem sim quadros específicos e escolhemos aleatoriamente de acordo com o gosto pessoal de cada um sobre quem ou o quê falaremos na próxima edição dos quadros. Também tentamos ficar de olho ao que está sendo mais comentado ou pedido.

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Gustavo Nogueira

estudante de jornalismo, formado em cinema na lafilm institute, autor do livro "quadro a quadro". além do êxodo, é colaborador do universo hq.

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Questionar é preciso

Questionar é preciso
Questionar é preciso

Nietzsche estava certo quando falava do super homem, mas no seu tempo ninguém o compreendeu. Quando escreve no seu livro, A Filosofia na Era Trágica dos Gregos, que a modernidade afetou o pensamento livre, está coberto de razão. Basta observarmos como as pessoas formulam suas conclusões sobre diversos temas. Na maior parte das vezes associado a crenças e teorias formuladas em tempos passados.

Segundo Nietzsche, os pré-socráticos exerceram o pensamento livre: suas investigações filosóficas partia de uma análise completamente livre de amarras ideológicas.

Me aproveito dessa fonte para apontar uma crítica nos tempos atuais em relação ao termo: grupo minoritário. Todos sabemos que se refere ao fato de algumas pessoas estarem de fora do privilégio social e econômico. Mas por qual motivo usar a palavra minoria? Não poderia ser uma outra palavra?

Tenho a impressão de vir de uma articulação muito bem calculada e cruel. Ou seja: fazer esse grupo de  pessoas se sentirem menores. Dependentes de algo maior, no caso; a burguesia – a grande salvadora, só que não. Afinal o trabalhador proletariado, infelizmente alienado de sua produção, que enriquece os patrões alienado das dores de seus subordinados.

Por isso esse texto é um chamado a frase que estava escrita na entrada do Templo de Delfos: conhece te a ti mesmo. Não há remédio melhor do que entender realmente o que te faz feliz, só você tem essa resposta. Se livrar das amarras ideológicas, religiosas, mercadológicas e tudo que queira te convencer de uma verdade que não pertence a sua realidade, identidade e verdade pessoal, é libertador. Questionar é preciso.

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Diego Queiroz

estudante de jornalismo e videomaker, apaixonado pela vida e amante da filosofia. Atualmente tem um texto no site do Omelete e já estudou na AIC (Academia Internacional de Cinema).

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Entre o Mundo e Eu e a paternidade

Entre o Mundo e Eu e a paternidade
Entre o Mundo e Eu e a paternidade

Em um dia desses, mexendo no instagram, o Emicida postou no perfil dele uma indicação do livro Entre o Mundo e eu.

Eu, fã que sou, tanto de livros como do Emicida, pesquisei a respeito da indicação e o comprei logo em seguida.

Entre o Mundo e Eu foi escrito pelo jornalista americano Ta-Nehisi Coates, que também escreveu a fase dos quadrinhos “Uma Nação Sob Nossos Pés” do super-herói da Marvel Pantera Negra e é roteirista da atual fase do Capitão América, ainda inédita no Brasil.

Filho de militantes do movimento negro, o pai, por exemplo, ex-integrante do Partido dos Panteras Negras, Coates utiliza de suas experiências pessoais na criação de um livro bem íntimo, uma carta pessoal ao filho dele, e, sobretudo, um manual de como sobreviver no corpo de um homem negro nos EUA.

Questionando constantemente o que é habitar no corpo negro, o escritor debate sobre o racismo institucional e questiona o lugar do negro na sociedade. Com certeza, o livro mais importante que li sobre racismo e o que me fez abrir os olhos tratando-se de paternidade. Eu leria Entre o Mundo e Eu como um “conselheiro” na construção de ser um pai, especialmente de uma criança preta.

No último texto, abri uma reflexão sobre uma música, saúde mental e falei um pouco a respeito da minha experiência pessoal com a paternidade.

E tratando-se de paternidade, moramos em um país problemático com o tema.

Segundo dados do IBGE, em 10 anos, o Brasil chegou ao número de 1,1 milhão de famílias compostas pelo termo “mãe solo”. O termo leva a uma perspectiva em que mães solteiras são as únicas responsáveis na criação dos filhos, onde o abandono paternal acontece de forma cruel, pensando ainda que esses filhos são frutos de uma gravidez indesejada, somando com pessoas de origem periférica, com uma situação financeira de baixa-renda.

Mães solo desdobram-se diariamente para oferecer uma criação justa num país desigual.

Não é à toa a existência de um serviço oferecido pelo Poupatempo chamado “Encontre seu Pai Aqui”, que busca o reconhecimento de paternidade, e também, a diminuição no índice de abandono.

Mas, quando não ocorre o abandono, os pais, sobretudo pretos, conseguem proteger os filhos dos próprios traumas?

Crianças pretas precisam de uma preparação – sutil, claro – contra o racismo muito antes do que o primeiro contato com a escola.

A vulnerabilidade dessas crianças no enfrentamento racial é assustadora, visto que é uma fase de formação, e dependendo da intensidade, o racismo deixa feridas que não são curadas com o tempo, atrapalhando todo um desenvolvimento.

Quando a atriz, Taís Araújo, fala em uma apresentação ao TEDx Talks sobre a relação que o filho dela pode ter com o racismo logo cedo, podemos entender sobre a proteção que uma criança preta precisa desde pequena.

Ta-Nehisi Coates nos ensina, de uma forma bonita e traumática, o que os homens precisam começar a fazer em um processo de criação, demonstra o quanto é importante à presença paternal, os diálogos que vão além de sexualidade e drogas, mais do que “ensinar a ser homem”, mas tratando-se de crianças pretas, a proteção dos seus corpos desde muito antes de saberem que são crianças pretas.

Imagem: Divulgação Moonlight; dir.: Barry Jenkins; Plan B Entertainment, A24

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Dennis Cunha

Paulistano, estudante de Direito, amante da cultura hip-hop e metido a escritor.

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De Maio e o jornalismo em quadrinhos

De Maio e o Jornalismo em Quadrinhos
Veja a entrevista com um dos pioneiros do jornalismo em quadrinhos no Brasil
De Maio e o Jornalismo em Quadrinhos
Veja a entrevista com um dos pioneiros do jornalismo em quadrinhos no Brasil

Alexandre de Maio é um dos pioneiros do jornalismo em quadrinhos no Brasil. Suas matérias já foram publicadas em grandes jornais, como O Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo e Veja. Em parceria com o escritor Ferréz, lançou “Os Inimigos Não Mandam Flores” e “Desterro”, o segundo já viajou o mundo, lançado na França pela Editora Anacaona.

O trabalho de De Maio têm crescido em importância social, com matéria fortes sobre a periferia, e ganhado grande respaldo da crítica, sendo premiado nacional e internacionalmente.

Em 2018, lançou dois grandes quadrinhos, “Raul”, sobre um jovem que vive entre o crime e o sonho de ser rapper, e “Minas da Varzea”, contando a história de meninas que buscam ser jogadoras de futebol.

De Maio deu uma entrevista ao Êxodo contando um pouco de sua carreira, processo criativo e projetos.

Seu projeto, o Raul, é uma HQ bem diferente do que há atualmente no mercado de quadrinhos, por ser um quadrinho jornalístico. Como você encontrou essa forma de fazer jornalismo?

Cara, para mim foi natural, porque com 20 anos eu lancei a revista Rap Brasil, então eu já fazia o jornalismo em si, como jornalista mais tradicional. Essa revista que eu lancei em 1999 tinha 16 páginas de quadrinho, depois com o tempo acabei não conseguindo fazer as duas coisas, larguei.

Depois, em 2006, eu lancei um quadrinho de ficção com o Ferréz e só em 2010 eu juntei as duas coisas que eu já fazia, juntei em uma coisa que aí eu não precisava das duas coisas separadas. Então para mim foi um caminho meio natural, primeiro eu trampei como jornalista, fazia quadrinhos e as coisas juntaram.

Lógico que eu tinha como referência o Joe Sacco, Maus e eu vi a chance de também no Brasil fazer jornalismo em quadrinhos era um jeito de conseguir publicar mais quadrinhos, porque o trabalho autoral, de fazer um livro, vender, lançar, ele é muito lento, então eu queria desenhar, publicar e o público ler. O jornalismo para mim já era isso, eu conseguia escrever e as pessoas lerem e aí eu juntei as duas coisas, ficou ótimo!

Eu consegui produzir mais de 48 matérias de jornalismo em quadrinhos nos últimos 5 anos, então eu publiquei muitas histórias, muita coisa legal, que se fosse em livros autorais eu não conseguiria nunca ter abordado tantos temas quanto consegui.

O jornalismo em quadrinhos ainda é muito raro no mundo, e mais raro ainda no Brasil. Como foi a recepção do público?

Acho que você paga o preço de ser pioneiro, não tem como você ser popular e ao mesmo tempo pioneiro. Quando você lança alguma coisa que é meio diferente, você sofre por ter que explicar para todo mundo. Tanto no meio jornalístico eu tenho que explicar, quanto no meio dos quadrinhos.

Por outro lado, causa interesse por ser uma coisa diferente do que vem sendo feito tanto no jornalismo, como nos quadrinhos.

Mas tem sido muito legal, o público recebe bem. Em diversos veículos, as matérias têm tido muita audiência, porque elas sempre envolvem um tema muito forte e o desenho ajuda a potencializar. Então eu não tenho do que reclamar, tenho conseguido publicar em muitos lugares e tem sido bem legal.

Os temas abordados em seus trabalhos são, em grande parte, ligados a periferia, temáticas praticamente esquecidas pelo jornalismo tradicional. Por que você quis dar foco a essas temáticas?

Justamente pelo o que você falou, por ter pouca cobertura e também porque era a experiência que eu tinha, de repente, se eu fosse milionário eu ia escrever sobre turismo [risos].

Ainda mais fazendo a Rap Brasil eu conheci muito o Brasil e os problemas sociais de perto. Além de viver isso, indo pra rua e fazendo matéria, produzindo conteúdo sobre essas questões, isso acaba fazendo parte da sua vida e aí naturalmente você faz uma pauta mais nessa linha e outras pautas que chamam pra isso, então pra mim acho que foi bem natural.

Eu não pensei um dia: “vou fazer jornalismo de periferia” ou “vou fazer jornalismo sobre causas sociais”, eu queria fazer sobre coisas que estavam acontecendo e eram pouco relatadas e fazer de um jeito sério, vivendo o que está acontecendo, indo a campo, conhecendo as coisas.

Era um jeito de dar voz e divulgar coisas que não estavam muito em evidência. E o quadrinho, o super-herói, tudo isso sempre foi um lance de dar voz a quem não tem voz. Aprendi com os quadrinhos e com os super-heróis um pouco disso, de a gente poder, com X-Men e tantos temas legais, a dar voz a problemas sociais.

Você tem uma ferramenta que é o desenho, você consegue contribuir com isso. O primeiro quadrinho que eu fiz na vida com 18 anos já era sobre uma bala perdida que tinha acontecido na minha rua, era o que me tocava como pessoa e isso acabou transparecendo no trabalho.

Como nasceu o “Minas da Várzea”, um dos seus últimos lançamentos?

Nessas andanças por tantos projetos ligados a periferia, eu acompanhei o nascimento de um projeto muito bacana que é o “Mural”, jornalistas da periferia juntos querendo oferecer uma cobertura com mais propriedade sobre a periferia e há muito tempo eu acompanho o trabalho do Mural e eu tive essa oportunidade da mesa aqui na CCXP. Conversei com eles sobre produzir uma matéria juntos e conseguir lançar aqui e foi o que a gente fez.

Debatemos algumas pautas, escolhemos alguns temas que tínhamos na cabeça e junto com os jornalistas do Mural, fizemos uma matéria sobre as meninas da várzea.

No meu trabalho eu tenho feito coisa com muita gente, fiz coisa com o Greenpeace, fiz muita coisa com o Ferréz. E acho que é até uma característica do jornalismo, produzir matérias com outros jornalistas. São projeto bacanas.

Isso sempre acaba levando seu quadrinho para outros públicos também. É mais do que um projeto em que a matéria é legal, mas também o projeto em que ela está, que ela está ajudando, que ela envolve, que ela divulga também tem muita propriedade para falar.

A gente fez uma matéria em Parelheiros, as jornalistas moram em Parelheiros, por isso que a gente conseguiu encontrar uma aldeia indígena com meninas que jogam futebol que é algo que só quem mora lá que sabe, não tá na imprensa, a gente está descobrindo novos personagens, novos talentos, novas histórias.

Analisando a questão artística, em “Raul”, sua maior obra até o momento, você muda o seu estilo de traço, de desenho, como foi isso para você?

Eu estou há muitos anos com o mesmo estilo de desenho bem mais realista e eu queria um desafio estético nesse trabalho. Queria juntar desafios, com o formato em relação ao o que é uma entrevista e jornalismo em quadrinhos e eu vi que era uma oportunidade boa, já que eu ia sentar pra fazer esse projeto, então era uma oportunidade boa de também me propor um novo desafio estético quanto ao traço, formato…

Eu trabalhei com a [Mesa Digitalizadora] Cintiq e queria usar as vantagens dela, não somente reproduzir uma coisa que faria no papel no digital. Eu queria poder utilizar ferramentas da Cintiq, como desenhar com o branco com mais facilidade, você tem muitos recursos.

Era isso o que eu queria fazer, dar um choque na carreira artística.

No jornalismo em quadrinhos você produz muito rápido, você tem poucas oportunidades de testar um traço diferente e no livro você tem um pouco mais de tempo e aí eu fiz essa loucura de fazer as duas coisas junto, mas foi legal.

Quais são seus próximos projetos?

Tem um projeto meu com o Ferréz que chama Voadores, é um novo livro que a gente está trabalhando no roteiro ainda, então é coisa mais pra frente.

Imagem: Trecho de Desterro, de Ferréz e Alexandre de Maio

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Gustavo Nogueira

estudante de jornalismo, formado em cinema na lafilm institute, autor do livro "quadro a quadro". além do êxodo, é colaborador do universo hq.

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A Mensagem na garrafa

A Mensagem na Garrafa
A Mensagem Na Garrafa

A primeira vez que ouvi o Isaiah Rashad foi no ano retrasado (2017), através de uma playlist no Spotify chamada “Urban poets”. Não conhecia a playlist e gostei apenas do Isaiah, mas essa música em especial me chamou a atenção porque eu nunca tinha ouvido um rap tão diferente. “4r da squaw” têm muita coisa a dizer.

A letra, o beat, o flow e o refrão, fiquei louco nesse som. Aí fui assistir ao clipe e vi o Isaiah dando um rolê com o filho dele. Nesse clipe, as pessoas “têm um preço”. Desde números altíssimos, a números baixíssimos, chegando ao negativo.

Até cachorros têm preços no clipe. Um cachorro vale mais que o filho do Isaiah. Vale mais do que uma criança preta.

Fiquei tocado de verdade, esse lance de paternidade é meu ponto fraco. Mesmo tendo o privilégio de ter um pai, aquela parte de vê-lo como um herói foi se perdendo com o tempo. Acontece. Além de que, eu também quero ser um pai, mas um pai foda, um herói vitalício.

Hoje, quase dois anos depois, ouvindo esse som praticamente todos os dias, entendi o que significa pra mim.

“If I can pay my bills, I’m good, I’m comin’ over”  (Se eu posso pagar minhas contas, eu estou bem. Eu continuo)

O primeiro verso é extremamente presente na vida de um jovem preto. Penso que temos um pensamento e um receio de não conseguir pagar as contas e ficar suave desde muito cedo. Aquele papo de ser duas vezes melhor te impulsiona ou te pressiona tanto a ponto de botar medo.

O ambiente em que vivo, seja no trabalho ou faculdade, é composto em sua maioria por homens brancos e de uma situação financeira bem melhor que a minha. Isso tem sido um conflito desde o início, já me perguntei várias vezes o porquê de não conseguir “pagar minhas contas e ficar suave” igual esses caras. Acho louco imaginar um cenário de vida em que não há preocupações com a chegada dos boletos a cada mês.

Quando eu consigo ser duas vezes melhor e vencer parte da luta, canto com alívio.

Mas aí, o verso seguinte vem e me bate forte:

“Found a message in my bottle, your son is comin’ up”  (Encontrei uma mensagem na minha garrafa, seu filho está chegando)

Encontrar uma mensagem de aviso na garrafa que diz “mano, seu filho tá crescendo!” é muito pesado. Eu li a respeito do Isaiah e descobri que ele teve problemas psicológicos e enfrentou o alcoolismo também. Já cheguei perto disso, conheci a depressão e estresse esse ano e tenho aprendido a não internalizar muita coisa depois disso. Hoje faço terapia e procuro cuidar da minha saúde mental. Mas, perceber que utilizar do álcool, drogas ou relações problemáticas como tratamento para outros conflitos não é fácil, de ínicio. E quando se é um jovem preto com um ativismo vivo, o peso é outro. O “movimento” não tem abraça 100%. Eu, por exemplo, levei mais porrada do que um papo de união real até agora.

Hoje, eu reflito e leio bastante sobre a saúde mental de um homem preto. Entendo cada vez mais sobre a construção violenta que passamos desde a infância até a fase adulta e a forma abusiva que lidamos com ambientes e situações impostas depois disso.

4r da squaw é a minha música para tempos difíceis porque consigo ter uma reflexão pesada. Os dias bons, os que consigo pagar minhas contas e ficar suave, são os que reflito e me orgulho. Mas quando recebo uma mensagem através de uma garrafa falando que meu filho está crescendo…

Não tenho um filho, então faço uma metáfora com meus sonhos, objetivos. Eles estão aí. Depende muito de mim, na maioria das vezes. O foda é falhar, né mano? É não conseguir ser duas vezes melhor todos os dias. O meu filho está a cada dia mais perto e quando não, chega o aviso.

Imagem: Trecho do clipe 4r Da Squaw – Isaiah Rashad (https://youtu.be/nppKPgdc_u0)

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Dennis Cunha

Paulistano, estudante de Direito, amante da cultura hip-hop e metido a escritor.

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Rap + quadrinhos

Rap + quadrinhos
Conheça o projeto que uniu os super-heróis dos quadrinhos com os maiores rappers do Brasil
Rap + Quadrinhos
Conheça o projeto que uniu os super-heróis dos quadrinhos com os maiores rappers do Brasil

Após o grande sucesso da primeira temporada, o projeto Rap em Quadrinhos ganhou até uma exposição, e agora iniciou a segunda temporada de artes apresentando rappers em versões baseadas em heróis dos quadrinhos.

O Êxodo entrevistou a dupla criativa do projeto, o desenhista da Mauricio de Sousa Produções, Wagner Loud e, o youtuber, LØAD, falando um pouco do projeto, suas ideias e visões.

O projeto Rap em Quadrinhos alcançou um sucesso muito grande na internet, e agora até fora das telas através da exposição. Qual a importância que vocês veem nesse projeto?

LØAD: A representatividade de duas mídias que de alguma forma sempre foi marginalizada, conseguimos mesclar as duas e ver uma galera admirando e reconhecendo a importância de ambas, fora as crianças que já tinham MC’s como Brown de referência e agora tem o Pantera Negra também, o projeto abriu uma nova porta e que deixou muitos felizes!

LOUD: Ver o projeto tomando proporções maiores do que o nosso divertimento é muito maluco. A gente não imaginava que a galera ia gostar nesse nível. É importante chegar nas pessoas, seja pelo celular ou fisicamente em alguma exposição. Estamos animados e queremos continuar levando pra muitos lugares ainda.

Como foi a escolha dos artistas e dos personagens?

LØAD: Eu me baseio muito na personalidade de cada artista ou alguma linha incomum entre eles, aí trocamos ideia eu e o Loud e chegamos a um ponto e começamos a construir os personagens.

LOUD: Eu e o Løad sempre conversamos e traçamos os paralelos dos artistas e dos personagens que faríamos. E são artistas que gostamos e escutamos, então fica tudo mais fácil.

É perceptível que o público reagiu muito bem com esse projeto, mas como foi a recepção dos artistas?

LØAD: Todos os artistas adoraram, foi uma parada muito foda de ver, muitos deles já estavam até ansiosos para suas versões, o Rap é isso né mano? Ele colhe geral e sentimos isso com os artistas que acolheram nossas artes e elogiaram e se sentiram representados!

LOUD: Também foi muito bem! Acredito que como é uma homenagem e algo que o Rap BR ainda não tinha visto, todo mundo gostou. E isso só deu mais fôlego pra gente continuar.

Quais foram as dificuldades na produção do projeto? Algum artista foi mais difícil?

LØAD: Bom, acho que essa é boa pro Loud, porque as ligações pra eu fazer são de boas, mas creio que pega mesmo na hora de desenhar [risos].

LOUD: Alguns são mais difíceis de fazer… Chegar num layout bom para a arte, fazer o mais parecido possível com o artistas, isso é normal, mas acho que o mais difícil foi desenhar a Karol Conka e o KL Jay. A Karol porque chegar numa pose boa e pegar as feições dela foi complicado e o KL porque tem muito detalhe na ilustração.

Todas as artes do Rap em Quadrinhos estão excelentes. Vocês tem alguma arte preferida?

LØAD: As minhas preferidas são a do Black Alien e a do Sabotage. São as que mais pirei e mais curti até o momento. Gosto de todas, mas essas foram horas conversando e decidindo.

LOUD: A do Black Alien para mim é a preferida, sem dúvida. Gosto muito da arte do Mano Brown também e a do Kamau.

Em conversa com Sidney Gusman, editor da Mauricio de Sousa Produções, ele me contou que um de vocês, o Loud, chegou a falar com ele pedindo sugestões de heróis negros. Como vocês veem a representatividade negra no quadrinho internacional e nacional?

LØAD: Então, temos poucos conhecidos que chegam no grande público, o projeto de início iria ser mais voltado para heróis negros, mas vimos como seria difícil achar muitos aí acabamos mudando essa ideia e mudando a etnia de alguns que nos quadrinhos são brancos, o legal foi ver que a galera nem estranhou.

LOUD: O Sidão me mostrou alguns que eu nunca vi na vida, fiquei realmente impressionado como tem alguns heróis que a gente não conhece e os autores não usam.

Chegar à essa discussão com nosso projeto foi um lado muito importante pra gente, por que mostrar o quão carente a sociedade é de representatividade seja de cor, sexo,etc… O fator principal é mudar pequenos preconceitos e diretrizes patriarcais e religiosas que infeccionaram nossa sociedade por muito tempo. Tentar igualar ao máximo, levar o debate pra frente e não aceitar nenhum tipo de preconceito, por menor que seja. Acredito que em algum momento os heróis negros, as heroínas serão mais difundidos e a gente vai poder conhecer melhor eles.

Onde será a próxima exposição do Rap em Quadrinhos? E como podemos acompanhar os próximos trabalhos de vocês?

LOUD: Continuar acompanhando a gente no Instagram (@loadcomics e @w.loud) e no Twitter (@LoadComics e @LoudWagner) de cada um, estamos sempre falando dos eventos e a segunda parte do projeto vamos postar tudo lá.

Imagem: Rap em Quadrinhos (@loadcomics e @w.loud)

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GUSTAVO NOGUEIRA

estudante de jornalismo, formado em cinema na lafilm institute, autor do livro "quadro a quadro". além do êxodo, é colaborador do universo hq.

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