Um novo rumo em abordagens policiais

Um novo rumo em abordagens policiais
Um novo rumo em abordagens policiais

Este é o meu quarto texto no site e posso dizer que o rap é meu grande aliado. A forma de relacionar o que está tocando no Universo dos meus fones com o mundo “lá fora”, ficou evidente, de certa forma.  

Dessa vez, foi ouvindo a oitava faixa do primeiro álbum de estúdio – A Coragem da Luz – do rapper Rashid, intitulada “Futuro/No Meio Do Caminho” que eu tirei a ideia e referência.

Na música, o MC constrói uma narrativa de um preto sofrendo perseguições recorrentes na sociedade atual e sua luta para conseguir sair de caminhos, que, em muitas vezes, não foram de escolha própria. Um dos destaques é o forte refrão, deixando evidente que homens que detém poder, o usam para prejudicar ainda mais uma realidade historicamente imposta aos pretos no Brasil.

Mas, o que me chamou a atenção foi este verso:

“Sua cota é prever rolezinho e na porta do shopping barrar meu perfil me fazendo descer do buzão pra não ter arrastão numa praia do Rio (né?)”

A primeira frase diz respeito ao shopping JK Iguatemi, localizado em uma região nobre da cidade de São Paulo, que fechou as portas no dia em que estudantes da UNEafro se manifestaram contra a discriminação praticada pelos shoppings, – também em sua maioria de regiões nobres -, ao restringir o acesso de pessoas, principalmente por sua aparência.

Não bastasse isso, a frase que deu continuidade à rima é o meu ponto de partida.

Numa melhor contextualização, em 2015, após uma série de furtos em praias no Rio de Janeiro, o então governador Pezão, deu ordens à PM de retirar jovens e adolescentes, em sua maioria preta e pobre, estereotipando-os como ladrões, de ônibus que vinham de bairros periféricos em direção às praias da zona sul.

Um dos mais relevantes casos de abuso policial em abordagens, evidenciando falhas em um dos braços do Estado.

Antes de tudo, vale destacar o significado de jurisprudência.

Muito importante no meio jurídico, a jurisprudência nada mais é do que decisões, aplicações e interpretações das leis. A partir de uma nova jurisprudência, ou seja, uma nova decisão, outros casos semelhantes podem usar desta, como argumentação e sustentação de uma defesa, por exemplo.

E, recentemente, duas decisões podem mudar um panorama em abordagens policiais.

A mais recente saiu este ano, mas de uma ação proposta em 2010. No dia 05 de maio do mesmo ano, antes de um jogo do Corinthians pela Libertadores, pai e filho estavam indo para o estádio do Pacaembu, quando foram abordados pela PM.

Segundo o relato, o pai respondeu diversas perguntas, e a filho de 13 anos presenciou uma ação truculenta, coberta de ameaças, e tudo isso sob a mira de uma arma. A criança sofreu de estresse pós-traumático após ocorrido. E com o laudo do acompanhamento psicológico, o pai, advogado, processou o Estado e ganhou a ação em 9 de abril de 2018, depois de ter sido negada em primeira instância. O Estado foi considerado culpado.

A outra jurisprudência é um pouco mais antiga, ocorreu no ano de 2016. O Superior Tribunal de Justiça (STJ), com a Quinta turma, decidiu que o desacato não é mais crime. Segundo relator do caso, o ministro Ribeiro Dantas: “A criminalização do desacato está na contramão do humanismo, porque ressalta a preponderância do Estado – personificado em seus agentes – sobre o indivíduo”.

A importância dessas decisões podem causar grande impacto em uma abordagem policial, dado que é uma ação subjetiva de interpretação do agente público.

Muitas vezes, o cidadão não se sente seguro, e até ofendido com determinado tipo de abordagem. Definir o que é desacato ou não, acaba sendo complicado. Em contextos racistas, uma pessoa que passa a vida toda sofrendo diversos tipos de situações humilhantes, responder a uma acaba sendo o de menos, eu diria. Em pesquisas para essa pauta, encontrei a hashtag #MeuPrimeiroAbusoPolicial, o assunto é urgente.

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DENNIS CUNHA

Paulistano, estudante de Direito, amante da cultura hip-hop e metido a escritor.

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A Caminhada Mais Importante da História

A caminhada mais importante da história
A caminhada mais importante da história

Há momentos da história que são esquecidos ou ignorados. Momentos que muitas vezes são partes fundamentais para entendermos a atual realidade tanto do país quanto do mundo. Em A Marcha presenciamos a luta contra a segregação racial nos Estados Unidos através da trajetória de John Lewis.

Escrita por Lewis e Andrew Ayden, a trama é contada de forma não linear, através do artifício de Lewis narrar sua história para outros personagens, como para crianças que vão visitar seu escritório. Alternativa inteligente, pois o leitor já busca um paralelo com as consequências na atualidade dos atos de Lewis.

A narrativa é concisa e produz uma boa construção para a história de Lewis, pontuando fatos de sua infância, adolescência e vida adulta. Tudo é conectado, trazendo relevância a fatos que poderiam ser tratados como pueris, como sua vida na fazenda e as consequências em sua vida como pregador e líder.

O ponto alto da HQ é, sem dúvida, seu início na luta contra a segregação racial. A trama surpreende ao não focar em Martin Luther King, o colocando como alguém de suma importância e respeito do protagonista da história, mas traz luz aos homens e mulheres que estiveram na luta para a liberdade dos negros.

A arte de Nate Powell é feita totalmente em preto e branco, e consegue trazer a emoção necessária para a história cercada de tanta tensão. Há momentos em que se destaca em criatividade, mas em maior parte ela segue o padrão comum das histórias em quadrinhos.  

A Marcha – Livro 1 será fechado em três livros, e é reconhecida por ser a primeira série de quadrinhos a vencer o National Book Award, um dos principais prêmios de literatura dos Estados Unidos. Por ser uma trilogia, este primeiro volume fica com a falta de uma boa conclusão, o que diminui o nível de qualidade da trama.

John Lewis possui uma importância gigantesca em todo processo de direitos civis do negros, e neste livro vemos apenas o começo. Ainda assim, o presidente Donald Trump falou há alguns meses em seu Twitter que Lewis “fala, fala e não faz nada”. Parece que todos temos que ler A Marcha.

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GUSTAVO NOGUEIRA

estudante de jornalismo, formado em cinema na lafilm institute, autor do livro "quadro a quadro". além do êxodo, é colaborador do universo hq.

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Nelson Triunfo em poucas palavras

Nelson Triunfo em poucas palavras
Dançarino de breaking e outras pessoas comentam o que significa o dia da consciência negra.
Nelson Triunfo em poucas palavras
Dançarino de breaking e outras pessoas comentam o que significa o dia da consciência negra.

Quente que nem a chapinha no crespo, não, crespos estão se armando. Faço questão de botar no meu texto que pretas e pretos estão se amando, sim, Rincon Sapiência está certo. Quem circula pela cidade de São Paulo na Avenida São João no dia da Consciência Negra, sabe. Dar um passeio nessa data é se convidar a ter um olhar sobre a verdadeira história do afro-brasileiro, descendente de reis e rainhas que ao chegar aqui não eram escravos e sim escravizados.

 Essa data é uma oportunidade de sair dos estereótipos sobre as pessoas afros e notar a beleza que é os cabelos crespos, trançados e Black Power. A beleza que é uma feira preta, cheia de arte, música e cultura. Para saber um pouco mais, entrevistei algumas pessoas para compartilhar com vocês, leitores do Êxodo, a opinião delas do que significa a Consciência Negra.

Uma das pessoas é nada mais e nada menos que Nelson Triunfo – responsável pelos primeiros passos de breaking nas ruas do Brasil com o grupo Funk & Cia, enfrentando na época (1983) a repressão da polícia que via naquele movimento um ato de subversão e desobediência civil. Também foi um dos pioneiros em utilizar o hip hop como instrumento para a educação e inserção social, participando do surgimento da Casa do Hip-Hop de Diadema. Em poucas palavras Nelson Triunfo resume o que significa a consciência negra:

Nelson Triunfo, 64 anos

“A consciência negra é um resgate das raízes das nossas histórias. Nas próprias escolas só falam da escravatura, e não mostra a descendência de Reis que o povo afro têm.”

James Ryan, 25 anos. Sete anos que mora no Brasil e trabalha com fotografia. País natal: Haiti.

“No meu país não se comemora o dia da consciência negra, porque o meu país é inteiro negro, então todo dia é dia da consciência negra.”

Júlio César, 29 anos. Cantor de rap e tem uma música no YouTube chamada: Acredite em si.

“A consciência negra representa um dia de resistência e celebração de que a gente existe. Que temos uma cara no Brasil.”

Adriana Santos, 44 anos. Cozinheira.

“O dia da consciência negra é uma camuflagem do preconceito.”

Léria Nascimento, 39 anos. Empresária de beleza do salão Expressão Feminina.

“O dia da consciência negra tem um pós e um contra, a parte boa é lembrar nossas referências negras dos antepassados de reis e rainhas. O contra é querer tachar um dia dos negros, não acho legal isso.”

Stefany Silveira, 25 anos. Formada em recursos humanos e atualmente estuda os movimentos da dança.

“O dia da consciência negra é muito simbólico, independente da cor. É uma forma de manter a cultura sempre viva.”

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Diego Queiroz

estudante de jornalismo e videomaker, apaixonado pela vida e amante da filosofia. Atualmente tem um texto no site do Omelete e já estudou na AIC (Academia Internacional de Cinema).

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Banzo e a dor que herdamos

Banzo e a dor que herdamos
Banzo e a dor que herdamos

No 8º episódio da 2ª temporada da série Dear White People (Netflix), a personagem Joelle (Ashley Blaine Featherson) fala sobre a interessante descoberta de um grupo de pesquisadores de um hospital de Nova York. No momento despertou a minha curiosidade, mas eu precisava terminar logo a temporada (que por sinal, achei fraca em comparação à primeira). Posteriormente, pensando em pautas para o site, lembrei-me do episódio e resolvi explorar o assunto.

Basicamente, o grupo de pesquisadores nova-iorquinos reuniram 32 homens e mulheres que foram presos em um campo de concentração nazista. As vítimas, além de presenciar os horrores da guerra, se enquadram em casos de tortura e perseguição. A descoberta se deu através de uma análise com os filhos dos sobreviventes, observando que os mesmos tinham uma probabilidade maior de estresse.

Os traumas sofridos foram tão fortes e o ambiente no qual foram colocados foi tão prejudicial, que através do DNA, surgiram alterações genéticas e os sinais podem ser transmitidos através dos genes para os descendentes dos sobreviventes do Holocausto. Assim, nomeando a teoria de Herança Epigenética.

Em uma declaração para o jornal britânico The Guardian, Rachel Yehuda, líder da pesquisa diz “se há um efeito de trauma transmitido, seria em um gene relacionado ao estresse que molda a maneira que lidamos com o nosso meio ambiente”.

Esta frase me fez pensar muito e relacionei-a a outra tragédia na história da humanidade.

Sabe-se da brutalidade da escravidão, porém, me pergunto se o ambiente imposto, as diversas formas de violência e a obrigação de negar suas raízes causaram um impacto genético para os filhos e netos dos escravizados. Seria o sentimento denominado Banzo, transmitido geneticamente?

Banzo (do quimbundo mbanza, “aldeia”), é o nome dado ao sentimento de extrema melancolia que os escravizados sentiam aos serem trazidos do continente africano para o Brasil. Chegando aqui, os africanos eram separados do seu grupo cultural e geográfico, sendo misturados com pessoas de outras tribos, perdendo a comunicação com semelhante, compartilhando apenas as diversas formas de tortura, o trabalho forçado, as condições desumanas, o estupro, a violência assustadora que o ambiente lhes proporcionava. Assim, a saudade de casa, de sua terra natal, do seu povo misturada com um sentimento desolação, matava. Relatos apontam que os africanos chegavam a recusar comida durante dias, alcançando o estado de inanição ou cometendo outros métodos de suicídio.

Agora, imaginem o seguinte cenário:

Brasil, século XXI, 2018. A lenda do “país miscigenado e sem preconceitos” está em debate. Diariamente dados apontam a desmistificação desta lenda. Ainda somos os que mais matam, os que mais morrem, os que mais são presos, os mais desempregados. Entretanto, minoria nas universidades e cargos de chefia. Os filhos da diáspora africana não sabem o país de origem de seus ancestrais, os pretos retintos (ainda) são os que mais sofrem com um país estruturalmente racista, como por exemplo, sendo preteridos em meios empresariais e algumas de suas características físicas (nariz, cabelo, boca) negadas pelo padrão branco de beleza imposto.

Além do Banzo, não se sabe aonde foi a Casa (Aldeia) nem para sentir o Banzo direito. Não se sabe se é pecado o culto dos orixás. Não se sabe nomear os próprios traumas.

Talvez, seja esta a Herança Epigenética dos descendentes dos escravizados. A severa perda de identidade e as marcas do seu processo.

Agradecimento: esse aqui vai pra Grazielle Campos, que me ajudou na tradução do artigo do The Guardian. Com isso, eu consegui ter uma base melhor do que é a Epigenética. Valeu Grazi!

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DENNIS CUNHA

Paulistano, estudante de Direito, amante da cultura hip-hop e metido a escritor.

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A Hora e a Vez de Jeremias

A HORA E A VEZ DE JEREMIAS
Jeremias - Pele e o afro no quadrinho
A HORA E A VEZ DE JEREMIAS
Jeremias - Pele e o afro no quadrinho

O selo Graphic MSP, coleção que reúne releituras dos personagens de Mauricio de Sousa, chega a 18° edição com Jeremias – Pele, com roteiro por Rafael Calça e desenhos por Jefferson Costa. Uma belíssima HQ que aborda o racismo pela visão de uma criança.

O afro no quadrinho nacional é personagem distante, o próprio Jeremias era, em grande parte, um coadjuvante. É curioso analisar que grandes editoras como Marvel e DC buscam protagonismo afro atualmente e o quadrinho brasileiro não possuir esse norte.

Em algumas análises, esse foco das grandes estadunidenses é visto como objetivo mercadológico e não ideológico, mas ainda assim vemos grandes histórias, como a Miss Marvel Kamala Khan, de G. Willow Wilson ou o Lanterna Verde John Stewart que ganhou relevância nas mãos de Dennis O’Neil e Neal Adams.

Voltando ao Brasil, o atraso na representação do afro nas HQs é muito forte. O mais famoso que pode se aproximar em representatividade é a Turma do Pererê, criada por Ziraldo, mas que apresenta de forma estereotipada através do personagem do folclore Saci.

Mas chegamos a hora e a vez de Jeremias. Na contracapa de Jeremias – Pele, o rapper Emicida diz “Jeremias está chegando na hora certa. Sem mais atrasos”. Sempre foi tempo de falar sobre racismo e colocar o afro com protagonista, mas o momento do lançamento foi o mais propício para Jeremias.

O alto índice de mortes de afros no Brasil e a morte de Marielle Franco foram fatores externos que “obrigaram” a vinda de Jeremias. Dentro dos quadrinhos brasileiros, o crescimento de Marcelo D’Salete é meteórico. O autor trouxe grandes publicações sobre a atualidade e a história afro, como Angola Janga, Noite Luz e Cumbe, sendo o último reconhecido internacionalmente com o  prêmio Eisner.

A hora de Jeremias chegar pode ser a mais atrasada, mas ela chegou, o futuro dirá se o quadrinho nacional abrirá os olhos para a importância dos afros nas HQs.

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Gustavo Nogueira

estudante de jornalismo, formado em cinema na lafilm institute, autor do livro "quadro a quadro". além do êxodo, é colaborador do universo hq.

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Tudo pela História

Tudo pela História
Ensaio sobre a História
Tudo pela História
Ensaio sobre a História

O mundo se alimenta de histórias. Não tenho dúvidas, observe: as marcas, os jornais, os filmes, os programas televisivos, os programas de rádio, as músicas, os livros, esse texto, os casais, os solteiros, as religiões, a Bíblia, tudo, realmente tudo se alimenta de boas e novas velhas histórias.

Com a “História” ninguém discute, é ela a entidade superior: com ela temos o parâmetro do passado, do presente e do futuro. Dela que nascem as expectativas mais altas, dando frutos às imaginações mais saborosas – também podendo ser, infelizmente, as mais desastrosas.

Pela história foram cedo os poetas, pela história morreram os profetas, por ela se cria heróis, se cria políticos, se cria filósofos e cientistas que tentam entender a origem de toda essa história.

Por isso amigo leitor, se eu pudesse dizer algo a respeito da “História” seria: se reconcilie com a ela enquanto é tempo. Dê a mão para a história da sua família, dos seus amigos, da sua companheira ou companheiro, pois ao pesar aquilo que mais tem valor na vida, verá o quanto essa dissertação tem razão. Pela história vivemos e por causa dela não morremos.

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Diego Queiroz

estudante de jornalismo e videomaker, apaixonado pela vida e amante da filosofia. Atualmente tem um texto no site do Omelete e já estudou na AIC (Academia Internacional de Cinema).

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Quando éramos rainhas e deuses

Quando éramos rainhas e deuses
A ancestralidade da diáspora africana e a deturpação de sua história
Quando éramos rainhas e deuses
A ancestralidade da diáspora africana e a deturpação de sua história

 

No texto anterior, abri uma discussão a respeito da ancestralidade africana, destacando o processo de perda de identidade e colocando em evidência a rica história de alguns reis. Entenda melhor clicando aqui. Dito isso, é extremamente importante apontar o reinado e liderança das mulheres também. Pois, ao contrário do que se imagina, o machismo e patriarcado não teve força no continente africano, ao contrário do que se sabe no tão exaltado continente europeu.

Começando por Ngola Ana Nzinga Mbande, também conhecida como Rainha Ginga. Viveu no período de tráfico de escravos na Angola e demonstrou grande oposição aos governantes portugueses. Suas notórias façanhas ocorreram durante negociações com o governante português Correia de Souza, que, em uma das reuniões, tentou intimidá-la, sentou-se em uma cadeira e pôs uma esteira no chão para a Rainha. Correia de Souza não contava com a lucidez de Ginga ante a situação, que pôs uma escrava de quatro e sentou-se sobre ela, assim, igualando-se ao governante.

Esta é uma das histórias mais famosas de Ginga. Um pouco mais acima de Angola, mais precisamente em Gana, o destaque vai para a Rainha-mãe Yaa Nana Asantewaa. Viveu na época do Império Ashanti, em Ejisu. Conhecida por ser uma mulher forte, defendeu bravamente o seu povo e cultura contra o Império Britânico, em 1900.

Diante de uma exigência específica do representante britânico da época, a entrega do Trono de ouro, o objeto mais sagrado da cultura Ashanti, os homens líderes do império Ashanti estavam inclinados a acatar, quando Yaa Asantewaa tomou a frente da situação e mais tarde, liderou a Guerra do Trono de ouro, também conhecida como A Guerra de Yaa Asantewaa.

Com 60 anos de idade, esteve constantemente no fronte de batalha e até hoje é lembrada pelo povo de Gana como a mulher que defendia aquilo que acreditava, erguendo-se contra os colonizadores europeus. A força da mulher africana sempre fora uma marca do seu povo.

Voltando para as citações, este é um trecho da música “En tu mira”, do rapper Baco Exu do Blues. Começando por dar aos créditos ao Mc, em 2017, Baco lança seu álbum de estreia na cena do rap nacional. Com batidas fortes e batuques dos atabaques do Candomblé e do Maracatu, o rapper nos proporciona uma viagem muito íntima para a Bahia, e também, para seus conflitos. Agora é a vez de ele me ajudar a contar a história da divindade roubada dos africanos.

Em “En tu mira”, Baco revela seus conflitos e o peso da expectativa que o artista carrega. No trecho em destaque, o Mc traz a tona um exemplo da relação que os humanos têm com o conceito de divindade nas religiões africanas.

Enfraquecida pela catequização dos colonizadores, as religiões de matrizes africanas são um símbolo de resistência desde a chegada dos escravizados no Brasil. Os africanos trouxeram ao Brasil o Candomblé, onde usavam as imagens dos santos para escapar da repressão imposta pela Igreja. No culto dos orixás acontecem homenagens, as divindades homenageadas nos rituais são antepassados. Assim acontece o transe da incorporação da energia das divindades celebradas nas pessoas – os cavalos -, que são iniciadas e fazem parte de famílias do terreiro. O fato é que na história de origem do Candomblé, não havia separação entre o Orum, o Céu dos orixás, e o Aiê, a Terra dos humanos. Homens e divindades iam e vinham, habitando no mesmo espaço e dividindo experiências. Éramos deuses, e acreditávamos nisso todos os dias.

Diferente em diversos, pontos a Umbanda surge no Brasil no século XX, sincretiza o catolicismo, espiritismo e as religiões africanas. Em 2010, o IBGE divulgou um censo sobre a população religiosa. Os adeptos da umbanda e do candomblé eram apenas 0,3% da população religiosa no Brasil, historicamente distorcidas e endemoniadas pela Igreja. Em contrapartida, o número de evangélicos é de 22,2% e o de católicos 64,6%. Hoje, os negros representam 54% da população brasileira.

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DENNIS CUNHA

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Ao Oriente Médio em Quadros

Ao Oriente Médio Em Quadros
Conheça as histórias em quadrinhos que aproximam a realidade distante do Oriente Médio
ao oriente médio em quadros
Conheça as histórias em quadrinhos que aproximam a realidade distante do Oriente Médio

Notícias ligadas aos conflitos do Oriente Médio e seus arredores estão a todo momento nos jornais e revistas. Entender tudo o que ocorre e compreender a realidade das pessoas que estão nesta região é muito difícil. Atualmente há diversas obras que apresentam a vida no Oriente Médio.

A série que está em seu terceiro volume no Brasil pela Editora Intrínseca, O Árabe do Futuro, de Riad Sattouf, apresenta a autobiografia do autor, focando em sua infância e chegando a sua juventude. Riad traz um pouco das dificuldades financeiras e religiosas do ponto de vista de uma criança, uma visão única e importante.

A obra de Sattouf lembra o premiado Persépolis, de Marjane Satrapi, onde conhecemos a vida da autora após a revolução islâmica, ocorrida no Irã. A HQ ganhou maior reconhecimento após ser adaptada para o cinema na animação homônima. A grande edição, mais de 350 páginas, foi publicada no Brasil pela Companhia das Letras.

Quando se fala de jornalismo em quadrinhos, o grande nome é Joe Sacco. O quadrinista-jornalista maltês produziu obras como Palestina e Notas Sobre Gaza, HQs que mostram a riqueza do jornalismo em quadrinhos e se tornaram referência para esse formato de jornalismo. O Mundo de Aisha de Ugo Bertotti é outra grande obra do gênero.

Por vermos os personagens e por vezes pela visão do personagem, há muita emoção na história, como o romance Habibi de Craig Thompson. Na trama acompanhamos Dodola e Zam, crianças escravas unidas e separadas pelo destino, que compartilham um amor sem medidas.

Através da arte é possível viajar sem sair do lugar e por essas obras aprender sobre uma realidade importante e por muitos ignoradas.

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Gustavo nogueira

estudante de jornalismo, formado em cinema na lafilm institute, autor do livro "quadro a quadro". além do êxodo, é colaborador do universo hq.

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