Analfabeto político hoje

Analfabeto político hoje
O analfabeto político não é mais aquele que desconhece o impacto das decisões políticas sobre sua vida. É verdade que ele não sabe as dimensões desse impacto sobre cada aspecto da vida, pois desconhece detalhes importantes do funcionamento da economia e das instituições.
ANALFABETO POLÍTICO HOJE
O analfabeto político não é mais aquele que desconhece o impacto das decisões políticas sobre sua vida. É verdade que ele não sabe as dimensões desse impacto sobre cada aspecto da vida, pois desconhece detalhes importantes do funcionamento da economia e das instituições

No Brasil de hoje, o analfabeto político não é mais aquele que desconhece o impacto das decisões políticas sobre sua vida. É verdade que ele não sabe as dimensões desse impacto sobre cada aspecto da vida, pois desconhece detalhes importantes do funcionamento da economia e das instituições. O analfabeto político pode ser de esquerda ou de direita, pode ser anarquista, capitalista, comunista, ou ainda um daqueles ingênuos que se dizem “apolíticos”.

Há muitos tipos de analfabeto político. Há os que de fato não falam de política nem se envolvem, como também os que se envolvem até o pescoço. Há os que desconhecem a história e pensam que o presente não tem relação com o passado, mas há também aqueles que fazem questão de conhecer esse passado porque sabem que isso é importante. Para não repetir a história, conhecem os erros cometidos por seus ancestrais, mas não percebem que esses mesmos erros são capazes de vestir uma nova roupagem. Não identificam a continuidade do passado no presente.

Ao contrário do que diz o texto atribuído a Brecht, em que o analfabeto político é apresentado como aquele que “não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos”, o sujeito que estamos descrevendo aqui não perde a chance de comentar os assuntos do momento, às vezes em seu canal do youtube. Pode ser que ele participe ativamente de algum movimento, ou até de um partido político.

O analfabeto político, por mais redundante que pareça, é aquele que não sabe ler a política, porque não sabe quem toma as decisões, não entende a relação de um candidato com seu partido, nem com seus eleitores. Não entende também o que é a correlação de forças: não entende como funcionam as alianças, nem as disputas, nem os acordos de ocasião. Não entende a diferença entre estratégia e tática.

O personalismo é um traço marcante do analfabeto político. Ele acredita, ingenuamente, que vota em pessoas e não em partidos, ou então idealiza um futuro em que não existam partidos, mas apenas um “povo unido”. Ele pensa que a existência de partidos é um defeito da política, pois não percebe que os coletivos se formam porque existem opiniões diferentes sobre o que é melhor para todos.

Ele imagina que as decisões políticas são tomadas somente por indivíduos, menosprezando o processo pelo qual os governantes são selecionados, filtrados e moldados por grupos de interesse que os rodeiam. Às vezes, ele até sabe que esse processo existe, mas imagina que um bom governante teria personalidade (ou vontade) forte o suficiente para ser ele mesmo, o político autêntico, imune a pressões. Ou seja, sonha com um político apolítico.

Ele dá muita importância aos atributos pessoais de um candidato: se é competente ou incompetente, se tem formação acadêmica ou não, se é honesto ou desonesto… se já foi condenado em algum processo ou acusado de corrupção. O analfabeto político não desconfia que uma acusação possa ser mentirosa, ou que uma condenação possa ser injusta. Mas ele se lembra disso quando é tão apegado a um líder que não pode acreditar em nada de ruim que se diga sobre ele.

Ele usa a palavra política como acusação: diz coisas como “essa greve é política” ou “esse movimento é político”, porque confunde a política com seus aspectos mais fúteis: o sectarismo e o partidarismo. Ele acredita que greves e movimentos não deveriam ser políticos, simplesmente porque não percebe que debater o destino coletivo sempre é fazer política.

Ele tem memória curta, não apenas porque esquece em quem votou na última eleição. Mais que isso, ele se esquece de acompanhar os desdobramentos das suas próprias decisões. Depois que elege alguém, ou apóia um projeto de lei, ou um movimento qualquer, ele não se pergunta se a decisão foi acertada. Não faz autocrítica. No máximo, ele se decepciona com o candidato em quem votou, ou culpa alguém pelo fracasso do projeto que apoiou. A memória dele não é apenas curta: é seletiva e conveniente.

O analfabeto político, como qualquer outra pessoa, desenvolve suas primeiras preferências e opiniões políticas simplesmente com base em suas relações afetivas. Aprende com suas principais referências, sejam pais, irmãos, professores ou quaisquer outros, aquilo que é correto ou incorreto na política. A diferença entre ele e uma pessoa politicamente consciente é que o analfabeto político não percebe essa origem afetiva de seus posicionamentos. Por isso, não é capaz de se questionar se a realidade confirma ou não suas ideias: elas já estão confirmadas de antemão.

Como acredita que todos são alienados (menos ele), ele fala mal da “mídia” sem perceber que as suas fontes de informação também são mídias. Acha que suas “opiniões” são inteiramente suas, que não são influenciadas por ninguém. Não checa informações, não duvida de notícias, e quando alguém lhe avisa que ele compartilhou uma notícia falsa, ele se isenta de qualquer responsabilidade, dizendo: “eu só compartilhei”. Duvida das pesquisas de opinião quando elas mostram seu candidato perdendo, mas acredita nelas quando ele está bem colocado.

O analfabeto político não percebe vive dentro de uma bolha, como todos nós, e não percebe a necessidade de transitar entre várias bolhas para entender o mundo e as pessoas que fazem parte dele. Por isso, fica chocado quando entra em contato com a diferença. Diz que “todos os políticos são iguais”, simplesmente porque não observa as diferenças entre eles.

Mas o mais grave é que, muitas vezes, ele não está nem aí. Pode se lembrar e se esquecer de cada um desses detalhes, desde que não precise sair da sua zona de conforto. Ele está sempre com a consciência tranquila, pois a culpa é sempre de um outro.

É claro que as características descritas acima nem sempre andam juntas. Na verdade, há muitos tipos de analfabeto político, e talvez a maior dificuldade seja descobrir com qual deles você se parece mais.

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Henrique Cunha

Formado em sociologia pela USP e atualmente é professor. Adora caminhar na praia e observar as relações sociais

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Quadrinistas e politizadas

Quadrinistas e politizadas
Projeto online reúne charges políticas feitas somente por mulheres
Quadrinistas e politizadas
Projeto online reúne charges políticas feitas somente por mulheres

No universo da internet e principalmente nas redes sociais, vivemos um momento onde muito se fala de política e de posicionamentos dos grupos considerados minoritários. Em meio a isso, as quadrinistas Thaís Gualberto, Aline Zouvi, Carolina Ito e a pesquisadora Dani Marino criaram o projeto “Políticas”: o objetivo é oferecer um espaço para que quadrinistas publiquem seus cartuns, charges e tiras.

“A ideia de que mulheres não desenham charges ou não se interessam por política ainda é bastante forte no inconsciente coletivo, quando na verdade, sabemos que mulheres chargistas que atuaram nos mesmos veículos e com a mesma proficuidade que autores renomados, apenas não tiveram o mesmo prestígio e visibilidade.” explica Dani Marino, uma das fundadoras.

O projeto foi iniciado em novembro de 2017, e a página chamou atenção ao reunir dezenas de quadrinistas para homenagear Marielle Franco, vereadora do PSOL assassinada em março de 2018.

As mulheres que possuem interesse de participar do Políticas podem enviar seus desenhos para  o e-mail: politicashq@gmail.com.

Redes sociais do Políticas:

https://www.facebook.com/politicashq/

https://www.instagram.com/politicashq/

https://politicashq.tumblr.com/

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Estranhos Frutos

Estranhos Frutos…A violência é ingrediente cotidiano na vida dos de baixo. Desde quando seus corpos negros eram pendurados nos álamos do sul dos EUA.* Estranhos

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Gustavo Nogueira

estudante de jornalismo, formado em cinema na LAFilm Institute, autor do livro Quadro a Quadro. Além do Êxodo, é resenhista do Universo HQ.

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A censura de Castanha do Pará

A censura de Castanha do Pará
Entenda o caso da censura com a HQ Castanha do Pará, de Gidalti Jr.
A censura de Castanha do Pará
Entenda o caso da censura com a HQ Castanha do Pará, de Gidalti Jr.

A arte da capa de Castanha do Pará, de Gidalti Jr., foi retirada dia 16 de abril de uma exposição do Parque Shopping em Belém, motivo: a ilustração mostrava um garoto de rua com cabeça de urubu – personagem principal da obra -, fugindo de um policial militar no Mercado Ver-o-Peso. Anterior a este episódio, o quadrinho é o primeiro vencedor da categoria Histórias em Quadrinhos do Prêmio Jabuti, um dos principais prêmios de literatura do país.

A exposição estava ligado ao debate “Negritude no cinema e HQs”, e buscava mostrar a diversidade brasileira com a arte de Gidalti mostrando a cultura de Belém. Outros artistas como Jack Jadson, Eric Black e Joe Benett também participaram.

A polêmica iniciou após a publicação de um policial militar na página do Facebook – “Guerreiros do Pará”. O PM declarou estar ofendido e ameaçou processar o Shopping. Por causa da pressão, o Parque Shopping cedeu e retirou a ilustração, declarando que irá colocar uma nova arte de Gidalti no local.

Após ser informado da remoção da obra, o autor se manifestou pelas redes sociais declarando: “total repúdio aos conceitos arbitrários que classificaram a imagem como uma ofensa à polícia militar” e “uma vitória parcial da ignorância, do medo e de forças antagônicas à liberdade”.

É importante ressaltar que a crítica a arte de Gidalti surgiu do Facebook e não diretamente da Polícia Militar, como informado pelo artista. “Algumas pessoas ligadas à Polícia Militar já se manifestaram corrigindo as críticas, apontando que elas não têm fundamento. No fim, a situação toda se mostrou irônica e patética”, diz Gidalti Jr.

A censura com Castanha do Pará ocorreu próximo ao caso da adaptação de O Diário de Anne Frank em quadrinhos, em que pais de alunos de uma escola de Vitória/ES desaprovaram a leitura da HQ, devido a um trecho em que as personagens conversam sobre o órgão sexual feminino.

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Gustavo Nogueira

estudante de jornalismo, formado em cinema na LAFilm Institute, autor do livro Quadro a Quadro. Além do Êxodo, é resenhista do Universo HQ.

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O tombo, o motorista, a Peppa Pig

O tombo, o motorista, a Peppa Pig
O dia continuava rotineiro, trânsito, um leve cochilo despertado pelo meu próprio ronco, pessoas conversando sobre a vida, tudo onde deveria estar.
O tombo, o motorista, a Peppa Pig
O dia continuava rotineiro, trânsito, um leve cochilo despertado pelo meu próprio ronco, pessoas conversando sobre a vida, tudo onde deveria estar.

Era uma manhã de segunda-feira ensolarada e extremamente quente, acordei suada com o nariz entupido por conta do ventilador e com uma sensação que eu não deveria sair de cama. Entrei no banheiro e evitei o espelho como sempre (ninguém merece se olhar pela manhã com os olhos cheios de remela) liguei o chuveiro familiar, tirei os chinelos e senti aquele chão frio. A água morna ia acalentando meus músculos e era reconfortante, a sensação de que eu não deveria sair da cama havia passado. Desliguei o chuveiro e me enrolei na minha enorme toalha rosa. Vesti minha calça preferida (florida) e minha blusa marrom do ‘Capitão Caverna’(eu definitivamente não tenho muito senso de moda pela manhã).  

Abri a porta e recebi um bafo quente de um típico dia de verão paulistano na cara, subi a viela lentamente para evitar a fadiga, cheguei à rua e fui pega desprevenida pelo sol que brilhava mais do que passista de escola de samba. Cheguei ao ponto, alguns rostos conhecidos, tudo normal como deveria ser em uma simples segunda. Entrei no ônibus e sentei na penúltima cadeira do fundo, de frente para porta, as pessoas foram preenchendo os outros lugares e eu como sempre rezando para ninguém sentar ao meu lado.  O dia continuava rotineiro, trânsito, um leve cochilo despertado pelo meu próprio ronco, pessoas conversando sobre a vida, tudo onde deveria estar.

O ônibus já estava se aproximando do meu ponto, então comecei a me espreguiçar e levantar, ele parou no sinal, fiquei em pé e tomei o meu posto de frente as escadas da porta do fundo, segurando bem as barras laterais para não cair, aquele trajeto era tão comum que eu contava mentalmente os segundos para o farol abrir, na porta do meio também a postos, estava um rapaz, branco, pernas longas, bermuda, mochila, nada fora do padrão. O sinal abriu fez aquela pequena curva que os meus joelhos já estavam acostumados, parou em frente ao meu ponto e abriu à porta, o rapaz das pernas compridas saio em um pulo, eu no meu ritmo normal fui descendo degrau por degrau segurando na porta direita, até que tudo aconteceu.

Em um piscar de olhos a porta fechou no meu pé e na minha mão direita, estava com mais da metade do corpo para fora, o pé esquerdo na poça de água suja, pedras, folhas e galhos, o ônibus começou a andar devagarinho e a porta pressionando cada vez mais meu lado direito, eu não conseguia mais pensar em nada. A vida parou por um instante, “Meu Deus eu vou morrer arrastada” até que fui despertada do meu devaneio com os gritos das pessoas que tentavam chamar a atenção do motorista. De repente sinto um alívio no e um solavanco, cai com tudo no chão, com os olhos fechados sinto a água inundando minha roupa como uma intrusa sem limites. Respirei fundo, escutei um som abafado de vozes muito perto perguntando se eu estava bem, abri os olhos e vi mãos e rostos vindos ao meu encontro com ar de aliviados, começam a tentar me puxar para eu levantar, mas me pegaram de mal jeito, me irritei com aquele puxa, puxa e me levantei sozinha. Ao ficar de pé um zunindo cresceu na minha cabeça, meus joelhos estavam amolecidos, mas estava bem, não vi nenhum sinal de sangue então relaxei um pouco, olhei a minha volta, todos estão com olhos arregalados como se esperassem uma criança começar a andar. Virei-me meio troncha e dei de encontro com o olhar culpado do motorista.

Desculpa moça, eu não te vi… você está bem?

Eu não quebrei nada, mas estou com dor

Desculpa mesmo, eu não te vi descendo, foi tudo tão rápido, você quer que eu te leve para o hospital?… Vem entra. Como faço agora?

Olhei em volta, todos voltaram para suas vidas, os passageiros foram para seus lugares no ônibus. Senti que meu braço esquerdo era o que doía mais, pois cai em cima dele, encaixei firme rente ao corpo e subi para o ônibus com os joelhos ainda bambos, o motorista continuava com os olhos arregalados.

Em todos esses anos de profissão isso nunca me aconteceu, me desculpa mesmo, não foi minha intenção.

– Tudo bem, não tem problema, eu sei que você não fez de propósito.

– Vou te levar para o AMA, tudo bem?

Na hora eu só queria sair dali, tomar um banho quente e tirar toda aquela lama do corpo. Peguei o celular e liguei para o trabalho.

Como assim caiu do ônibus Gleize?

Expliquei o ocorrido, e sabia que aquela pergunta ia ser recorrente até o final do dia. Avisei meus irmãos que avisaram minha mãe que me ligou desesperada logo em seguida, a acalmei, e ela disse que iria ‘matar’ o motorista, eu dei risada e olhei para ele, estava pálido como um defunto, suava frio e dirigia lentamente, desliguei o telefone.

O senhor está bem?

Sabe minha filha, eu sei que foi você quem caiu, mas eu não to bem não, acho que minha pressão caiu.

Ele me deu um sorriso amarelado e respirou fundo, lembrei que tinha saquinhos de sal na bolsa para essas eventualidades e lhe dei um. Ele aceitou de bom grado e consumiu depois de alguns segundos a cor voltou ao seu rosto.

Nossa eu te derrubo e é você quem me salva, muito obrigada moça, e, por favor, me perdoe, não foi minha intenção.  

– Tudo bem, eu entendo, estou viva e é isso que importa

Conversamos muito enquanto estávamos parados no trânsito, com o tempo o sangue esfriava e a dor aumentava e eu só rezava para chegar logo. Depois de 40 minutos chegamos ao AMA, eu desço torta e completamente suja do ônibus. Entro e todos me olham, no primeiro momento acho que é por conta de estar mancando um pouco, mas depois percebo que é por conta da lama já seca grudada nas minhas costas. O local estava cheio, não tem onde sentar fico em pé sem reclamar, pois não sei se teria forças para aguentar levantar. Depois de 10 minutos me chamam para o pré-atendimento, pressão e temperatura normais, conto o que aconteceu, e o enfermeiro arregala os olhos, faço aquela cara de ‘é, eu sei’ e sigo para as cadeiras do corredor. O motorista me acompanha como uma sombra culpada. Meu irmão finalmente chega e ele respira fundo, pede desculpas e vai embora. Depois de 15 minutos e ainda sem atendimento médico, minha mãe chega, me olha de cima a baixo e cai no riso, (tudo bem, um dia eu iria dar risada). 50 minutos depois e chama uma tal de “Gislene santos” vulgo “Gleiziele” no caso EU. A médica não me examinou, apenas perguntou o que estava doendo e digitou no computador, saio da sala me arrastando. Depois de 10 minutos me chamam na sala de raios-X, chapas de praticamente o corpo todo. 30 minutos depois e a médica que mal me olhou diz que não quebrei nada (isso eu já sabia) me dá um atestado e uma dipirona na bunda. Sai de lá agarrada em minha mãe com o corpo todo dolorido e a injeção vibrando, ela parou, me olhou bem e começa a rir.

há há  Peppa pig! Filha você é a Peppa, até na lama você estava brincando.

Nesse momento minha dignidade foi ao pé, e as risadas saíram abafadas com a dor. O que sobra dessa história é um novo apelido, e um bom caso para os meus netos.

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Gleiziele Oliveira

Estudante de jornalismo, já fez trabalhos como produtora audiovisual. Amante de livros e boas histórias. Também trabalha como Atriz no grupo Dádivas da Melanina e, como Assistente de Produção Editorial na empresa Caboverde Tecnologia e Serviços.

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Um povo sem memória

Um povo sem memória
Se reconhecer negro é um exercício diário de desconstrução de padrões
Um povo sem memória
Se reconhecer negro é um exercício diário de desconstrução de padrões

Quando se pensa na história do negro no mundo, a primeira imagem que vem a mente é a escravidão dos povos africanos, a desumanização do homem objetificando o outro. Os números dessa diáspora são incalculáveis, temos noção de onde começa e “termina”, mas não dos estragos no meio desse processo longo e tortuoso. A mancha dessa história feita de sangue, preconceito e intolerância ainda é presente e continua fazendo vítimas.

Segundo o último censo realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (2010), cerca de 50,7% da população brasileira se declara negra, considerando que, de acordo com o IBGE, o povo brasileiro é definido pelas categorias: indígenas, amarelos, brancos e negros (pretos e pardos). Atualmente somos o segundo maior país negro em população do mundo, perdendo apenas para Nigéria que fica no continente africano.

Direcionamos nosso olhar ao Brasil e vemos em seu povo as marcas dessa imigração forçada e violenta, um povo que muitas vezes não se reconhece e não se encontra, pois não estuda sua própria trajetória, não reflete sobre o passado para gerar processos eficazes que realmente mudem o presente/futuro.

Muitos povos constituem nossa nação e contribuíram para nossa formação social e cultural, os povos negros que foram escravizados não trouxeram para nosso país apenas sua mão de obra, mas também novas técnicas, ferramentas, danças, religião, comida, diversidade que se fundiu com tantas outras e formou o povo brasileiro. A Lei n° 10.639 altera a lei n° 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira”. Desde então a Lei assegura o direito ao ensino da memória negra.

Não estudamos a história da diáspora negra e, quando nos deparamos com ela poucas partes e nomes nos são apresentados. Quando falamos de Zumbi não nos contam de sua mulher a guerreira Dandara, que ao seu lado (e de tantos outros) formavam o Quilombo de Palmares e, lutaram pela liberdade de seus irmãos escravizados.

O patriarcado não está habituado a contar nas redes de ensino a história da mulher em qualquer aspecto, quando geramos o recorte de raça o apagamento da mulher negra se intensifica, primeiro por serem mulheres e depois por serem negras, os rastros de suas narrativas foram distorcidos e apagados. 

Se reconhecer negro é um exercício diário de desconstrução de padrões, pois não nos vemos representados na história. O ponto em que devemos partir, deve ser o de que vidas negras importam, que mulheres negras, mães solos, são uma maioria na periferia como único alicerce de suas famílias e, essas mulheres são silenciadas, são apresentadas apenas aos trabalhos domésticos e se conformam ali, pois a sociedade reforça esses padrões, se omitindo, negando o básico, suprimindo a memória de tudo que foge do padrão.

Graças há muitos anos de luta e, a crescente onda jovem de mudanças em vários aspectos e camadas, esse cenário está mudando positivamente, para as atuais e futuras gerações.

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Gleiziele Oliveira

Estudante de jornalismo, já fez trabalhos como produtora audiovisual. Amante de livros e boas histórias. Também trabalha como Atriz no grupo Dádivas da Melanina e, como Assistente de Produção Editorial na empresa Caboverde Tecnologia e Serviços.

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O que está por trás das Fake News: a pós-verdade

O que está por trás das Fake News: a pós-verdade.
Ensaio sobre o Fake News
O que está por trás das Fake News: a pós-verdade.
Ensaio sobre o Fake News

Um dos motivos para as pessoas acreditarem nas Fakes News está no significado da palavra pós-verdade: termo criado em 2016 pelo departamento da universidade de Oxford para definir circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência na opinião pública do que apelos a emoção e crenças pessoais – em outras palavras; se uma pessoa lê uma notícia que condiz com o que pensa, mesmo sem checar as fontes das informações ela tende acreditar como verdadeira.

O termo se popularizou mundialmente depois do artigo da revista The Economist: Arte da Mentira. No texto é apontado como muitas campanhas políticas se beneficiaram da pós-verdade, principalmente por criar notícias falsas ao candidato adversário, criando uma situação sensacionalista – apelo emocional – e induzindo valores contrários ao que a sociedade cultiva – crenças pessoais.

Para combater esse efeito desastroso na sociedade, o Êxodo recomenda uma agência de checagem que pode te ajudar a saber se uma notícia é falsa ou não:

  • Fato ou Fake: Um serviço do G1 que ajuda a ter um monitoramento e uma checagem de conteúdos duvidosos disseminados pela internet e celular.  

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Diego Queiroz

estudante de jornalismo e videomaker, apaixonando pela vida e amante da filosofia. Atualmente tem um texto no site do Omelete e já estudou na AIC (Academia Internacional de Cinema).

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Quando éramos Reis

QUANDO ÉRAMOS REIS
“Dizem que o diabo veio nos barcos dos europeus, desde então o povo esqueceu que entre os meus, todo mundo era Deus”
QUANDO ÉRAMOS REIS
“Dizem que o diabo veio nos barcos dos europeus, desde então o povo esqueceu que entre os meus, todo mundo era Deus”

Assim termina o segundo verso da música “Mufete”, do Emicida. E antes de explicar o motivo de cita-la, vale ressaltar algumas informações sobre o álbum que carrega esta música: Emicida viajou para o continente africano, passando por Angola, Moçambique e Cabo verde, trazendo referências africanas para suas músicas, tanto nas batidas quanto na lírica.

Dito isso, vamos à história: fomos escravizados, e não escravos. “Mas o que éramos antes disso tudo? De onde viemos, já que o continente africano é tão vasto? Quem foram nossos ancestrais?”. Algumas dessas grandes questões que a diáspora africana carrega, tem explicações em 1890, quando Ruy Barbosa, Ministro da Fazenda no Brasil, ordena por meio de um despacho, a destruição de documentos referentes à escravidão. 

Com isso, apagando todo o registro que poderíamos ter de nossos ancestrais, deixando toda nossa identidade destruída. Vale ressaltar, também, outro episódio da época: a Árvore do esquecimento, localizado em Benin. Em torno dessa Árvore, os escravos que eram trazidos da Nigéria, e passavam por Benin, deviam dar nove voltas, as escravas, sete, para que esquecessem de suas terras, de suas lembranças geográficas e de sua identidade cultural. Uma lástima para o povo afro.

Voltando ao título do texto, éramos reis, sim, também poderosos, basta olhar o exemplo de resistência do Rei Mandume, homenageado por Emicida, no mesmo álbum de Mufete. Mandume foi o último rei do povo Cuanhamas, localizado na Namíbia. Em seu reinado, expulsou comerciantes portugueses, travando batalhas contra portugueses e alemães. Acabou por vencido pelos alemães e de acordo com a tradição, Mandume preferiu se suicidar ao se render.

Mas, não só de batalhas e resistências viveram os reis africanos. Por exemplo, o Rei Mansa Musa, é considerado o homem mais rico da história, superando até mesmo o Imperador Augusto César. Em uma lista da Time de 2015, o Imperador Augusto César aparece em segundo lugar com US$ 4,6 trilhões, enquanto a fortuna do Rei Mansa é considerada inestimável. Seu reinado foi durante o século 14, no território de Mali, este destacado por grandes riquezas naturais, Mansa era o maior produtor de ouro no mundo.

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Dennis Cunha

Paulistano, estudante de Direito, amante da cultura hip-hop e metido a escritor.

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